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Entrevista: Zygmunt Bauman

13 de Agosto de 2010
De acordo com seu novo livro, o homem da modernidade líquida se transformou em uma raça de devedores. Pensando pela perspectiva dos homens, a situação não mudou muito, não? Permanece um cenário de dependência. 
O advento da modernidade líquida fez a transformação dos humanos em uma “raça de devedores” algo possível, mas não inevitável... Foi o capital, e particularmente o capital financeiro, que usou essa possibilidade para seu próprio benefício e em detrimento de todos os outros.
O capital não pode crescer a não ser explorando cada vez uma nova “terra virgem” até a exploração esgotá-las ao ponto da não-rentabilidade, e então buscando outra, ainda virgem, terra para substituir as já usadas. Isso foi a não mais do que 34 anos atrás que o capital financeiro “descobriu” as terras virgens das pessoas-sem-dívidas-para-restituir; pessoas educadas na cultura da poupança, a cultura do “ganhe primeiro, gaste depois”, uma cultura que condena as pessoas vivendo “além dos seus meios” como perdulários e esbanjadores.
Substituindo a cultura da poupança com a cultura do cartão de crédito, o capitalismo matou dois pássaros com apenas uma pedra: isso removeu os limites para a expansão do mercado consumidor fixado pelo nível de ordenados e salários; e tentou um grande número de pessoas a “tirar a espera que separava você do que desejava”, isso significa gastar dinheiro que ainda não foi ganho, os bancos e as companhias de cartão de crédito garantiram para si e seus acionistas uma renda estável na forma de juros pagos pelos devedores, pelos empréstimos que tomaram. A chamada "crise do crédito" foi simplesmente o resultado de outra terra virgem, desta vez as pessoas com nenhum empréstimo para pagar, esgotada a ponto de já não ser rentável. Todas as pessoas capazes de pagar os juros de suas dívidas, e muitos, muitos outros, já atingiram (ou transgrediram!) os seus limites. Capital em crescimento não pode seduzir mais pessoas a viver a crédito: todas as pessoas que poderiam ser seduzidas, já foram... 
Você chama isso de “dependência” e aponta que ser dependente não é exatamente uma novidade. Você está certa – mas esta variedade particular de dependência, a débito-dependência, tem a desagradável capacidade de ser auto-agravante... Governos correndo para “recapitalizar bancos”, arruinando os balanços nacionais de pagamento e forçando (impostos, ao contrário da compra, não precisam ser tentadores e sedutores) nações a um débito que a geração de netos e bisnetos, que não faz parte do “boom consumista” dos mais idosos, provavelmente continuará pagando. Então, no topo da dependência individual vem agora a dependência dos estado-nações; a dependência deles em forças globais e a favor das “multinacionais”. Mesmo a própria essência da nação saudável, os Estados Unidos, vai acordar em um estado de total colapso econômico, se dirigindo a China para exigir o reembolso imediato dos seus empréstimos ...

No livro, o senhor fala pela primeira vez sobre uma ciência líquida. O senhor planeja estudar mais profundamente sobre ciência e modernidade líquida?
Você está certa – Eu não escrevi muito antes sobre esse assunto (apesar de já ter começado a me preocupar com isso há muito tempo). Assim como você provavelmente notou, eu fui solicitado a articular e expressar minha visão sobre esse assunto por Citlali Rovirosa Madrazo, minha parceira na conversa. E deve ter notado também que, por não ser um cientista, limitei meu interesse em falar sociologicamente sobre ciência, e minha análise do papel que a ciência moderna desempenha na sociedade e seu impacto sobre a maneira como vivemos e, provavelmente, vamos viver em um futuro previsível.
A ciência de como as coisas são, como elas estão sendo, e como elas podem ser diferentes sendo como são. Todas essas questões são terrivelmente importantes; satisfazem nossa curiosidade natural, mas também possibilitam expandir a nossa imaginação... Além desse ponto, no entanto, fatores que estão fora do alcance dos estudos científicos e laboratoriais assumem o controle. Esses outros fatores decidem como as possibilidades descobertas pelos cientistas vão ser aplicadas, quais os propósitos, e para qual benefício (e qual dano...). Esses são fatores sociais: políticos, econômicos, militares; fatores operados pelos interesses humanos em política, economia, ganhos militares. E são esses fatores que transformam a ciência em uma benção ou em uma maldição. Meu interesse em toda a questão da ciência em nosso presente e nas perspectivas futuras foca nesses aspectos não científicos, na ciência da manipulação de fatores; fatores que decidem que possibilidades descobertas pela ciência são perseguidas e quais são negligenciadas e se as possibilidades que são perseguidas são perseguidas na intenção de melhorar o bem-estar da humanidade ou destruí-lo. As mesmas descobertas do mesmo ramo da ciência, da termodinâmica, tornou possível o aquecimento de casas e corpos, saudáveis e confortáveis, e a construção de crematórios em Auschwitz, feitos para queimar de forma eficiente, possibilitando destruí-los em quantidades antes impensáveis.
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