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Entrevista: Zygmunt Bauman

24 de Março de 2009
Estamos em uma época em que as medidas de segurança que adotamos só geram mais insegurança. Somos diariamente perseguidos pelos mais diferentes tipos de medo. E, entre as ameaças, ainda está a de ficar para trás, ser substituído, não acompanhar o ritmo das mudanças. Estudar os medos contemporâneos é tocar num dos pontos centrais da modernidade líquida?
BAUMAN – Os medos agora são difusos, se espalharam. É difícil definir e localizar as raízes deles, já que sentimos e não vemos… Isto é o que faz com que os medos contemporâneos amedrontem tão terrivelmente e os seus efeitos sejam tão difíceis de amenizar. Eles emanam virtualmente em todos os lugares. Há os trabalhos instáveis, as constantes mudanças nos estágios da vida, as fragilidades das parcerias, o reconhecimento social só dado ‘até segunda ordem’ e sujeito a ser retirado sem avisos prévios, as ameaças tóxicas, a comida venenosa ou com possíveis elementos cancerígenos, a possibilidade de falhar num mercado competitivo por causa de um momento de fragilidade temporária ou por causa de uma falta de atenção momentânea, as ameaças que as pessoas sofrem nas ruas e a constante possibilidade de perda dos bens materiais... 
Os medos são muitos e diferentes, mas eles alimentam uns aos outros e a combinação destes cria um estado na mente e nos sentimentos que só pode ser descrito como um ambiente de insegurança. Nos sentimos inseguros, ameaçados, não sabemos exatamente de onde vem esta ansiedade e como proceder. Os medos não têm raiz. Esta característica líquida do medo faz com que ele seja explorado política e comercialmente. Políticos e vendedores de bens de consumo acabam transformando esta característica em um mercado lucrativo. O comum é você tentar reagir, fazer alguma coisa, tentar desvendar as causas da ansiedade e lutar contra as (invisíveis) ameaças e isso é conveniente do ponto de vista político ou comercial. Tal atitude não vai curar a ansiedade, só alimenta esta indústria do medo. Adquirir bens em prol da segurança só alivia alguma tensão e por um breve tempo.
Para governos e mercado é interessante, portanto, manter aceso estes medos e, se possível, até estimular o aumento da insegurança. Como a fonte das ansiedades parece distante e indefinida é como se dependêssemos de especialistas, das pessoas que entendem do assunto, para mostrar onde estão as causas do sofrimento e como lutar contra ele. Não temos como testar a verdade que nos contam, só nos resta, então, acreditar no que dizem. Da mesma forma como quando nossos líderes políticos nos falaram que Saddam Hussein tinha armas de destruição de massa e estava pronto para detoná-las ou quando nos dizem que nossas preocupações e problemas acabarão quando os emigrantes forem enviados para casa. A natureza dos contemporâneos medos líquidos abre ainda um enorme espaço para decepções políticas e comerciais.

Tentar minimizar as diferenças entre as pessoas e estimular a mistura de classes seria uma forma de amenizar o sentimento de insegurança?
BAUMAN – Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas. Isto não significa, porém, que nós nos responsabilizamos por isto, que prestamos a devida atenção a este fato, quando agimos ou tomamos decisões. 
Um estímulo evidente para nossa falta de responsabilidade em relação aos nossos atos é a ignorância desta teia complexa de conexões. A maioria dos efeitos de nossas ações ou negligências ou da ação ou negligência dos outros acaba aparecendo como conseqüências inesperadas, efeitos colaterais surpreendentes ou estragos não calculados. Nós podemos limitar os danos (embora talvez seja impossível eliminá-los completamente) se aprendermos mais sobre a importância do bem-estar das pessoas e o quanto elas podem sofrer com o resultado de nossas ações. 
Mesmo se fizermos isso, em algum momento, surgirá algum outro obstáculo que precisará ser considerado. Este obstáculo está ligado à natureza puramente negativa da globalização. Só tais forças tendem a ignorar soberanias locais, leis locais e interesses da população de cada lugar. Nossos braços são muito curtos para alcançarmos a fonte dos problemas. Poder e política, que viviam unidos, estão separados e prontos para o divórcio. Nós somos deixados com políticas cada vez mais impotentes e poderes cada vez mais politicamente descontrolados...

No Brasil os seus livros venderam 100 mil exemplares. Acha que esse é um indício de que suas teorias estão tocando os pontos sensíveis da população nos dias de hoje?

BAUMAN – Sociologia é uma conversa em andamento, com troca de experiências humanas e que se espera resultar num aprendizado e esclarecimento mútuos. Isto é, pelo menos, o que eu acredito ser a forma como a sociologia deve ser utilizada para atender aos homens. Mas, no local de onde escrevo, e, acredito, também em outras partes, como o Brasil, a competição em nossa cada vez mais individualizada sociedade é guiada por uma preocupação crescente em relação à sobrevivência física – ou à satisfação das necessidades biológicas primárias, que os instintos de sobrevivência demandam. E também pelo poder de escolha individual, decidir quais são os seus objetivos e que tipo de vida cada um quer viver. Exercer estes direitos parece ser o ‘dever’ de cada um. Assim, tudo o que acontece ao indivíduo parece ser conseqüência deste direito e, tudo o que falha, uma recusa em botá-lo em prática. O que acontece ao indivíduo tende a ser visto como uma confirmação do poder de cada um. 

Uma vez agindo como indivíduos, nos encorajam a buscar reconhecimento social para nossas escolhas. Reconhecimento social significa a aceitação dos outros, a confirmação de que o indivíduo optou por uma vida decente, que vale a pena e que merece todo o respeito das outras pessoas. O oposto do reconhecimento social significa a negação da dignidade, a humilhação. 

Uma pessoa se sente humilhada quando recebe a mensagem, por palavras ou ações, de que não pode ser quem pensa que é. Esta humilhação gera preconceito e ressentimento. Numa sociedade individualista como a nossa, este é um tipo venenoso e implacável de ressentimento que a pessoa pode sentir, e uma das mais comuns causas de conflito, rebelião e revolta. Detona a auto-estima – nega reconhecimento, recusa respeito e aplica a exclusão – substitui a exploração e a discriminação como a explicação mais comumente usada para justificar o rancor do indivíduo em relação à sociedade. 

Isto não significa que a humilhação é um fenômeno novo e característico deste estágio da história da sociedade moderna. Ao contrário, é tão antigo quanto a convivência humana. Na sociedade individualizada, porém, as queixas e as explicações para a dor saem do foco do grupo e se voltam para o indivíduo. Mas em vez de apontar para a injustiça e o mal-funcionamento do todo social, e buscar um remédio na reforma da sociedade, sofrimentos individuais tendem a ser percebidos como uma ofensa pessoal, uma agressão à dignidade pessoal e à auto-estima, e, sendo assim, pediriam uma resposta e uma vingança pessoais. 

Parece haver uma tremenda desigualdade. É contra esta que a sociologia precisa carregar a sua mensagem. O mais importante passa a ser enviar e receber esta mensagem. Eu acho que este é o segredo para as pessoas terem mais interesse hoje pela informação que a sociologia pode proporcionar e acredito que isto ainda deve crescer por algum tempo. 

Suas teorias, muitas vezes, são classificadas como pessimistas. Mas o próprio ato de escrever sobre esse assunto já seria uma medida otimista, não? Uma forma de dar um alerta e afirmar que os caminhos podiam ser diferentes?
BAUMAN - A vida parece estar se movendo muito rapidamente para a maioria de nós, para conseguirmos seguir suas curvas e antecipar acontecimentos. Planejar movimentos e continuar leal às metas traçadas parece ser um empreendimento cheio de riscos, assim como fazer planos a longo prazo está cada vez mais perigoso. É como se a vida fosse dividida em episódios. E a conexão entre estes só parece possível (isso se for) quando você faz uma leitura retrospectiva. As preocupações e apreensões em relação ao sentido e ao destino são abundantes (embora difíceis de suportar), assim como os muitos prazeres que um mundo cheio de surpresas e uma vida pontuada por novos começos pode proporcionar.
O nosso drama, quando somos obrigados a nos mover em determinado cenário, não é nem um pouco facilitado pelas redes conceituais. Nós aprendemos a agarrar as realidades fugazes e a usar o que nós achamos pelo caminho, que faça sentido para nós e para os outros. Tantas palavras e conceitos que deveriam servir a este propósito parecem agora inaptos. Precisamos urgentemente de novos, para acomodar e organizar nossas experiências de uma forma que nos permita perceber a sua lógica e ler as mensagens escondidas ou demasiado propensas a leituras errôneas. Este é um desafio que a sociologia precisa confrontar – e eu tento ajudar neste sentido, empregando a minha (modesta!) habilidade...
Não me considero um pessimista (concordo com você. Se eu fosse, porque escreveria?). Mas também não sou um otimista. Quem são os otimistas? As pessoas que acham que este nosso mundo é o melhor possível. E os pessimistas? Pessoas que suspeitam que os otimistas possam estar certos... Existe, porém, uma terceira atitude possível: a da esperança, da confiança na capacidade humana de ser sensato e digno. Acredito que o mundo que habitamos pode ser melhor do que é hoje, que podemos fazer com que seja mais “amigável”, mais hospitaleiro para a dignidade humana. Franz Kafka expressou o que acredito, de uma forma muito melhor do que eu seria capaz de fazer: “Se você não achar nada nos corredores, abra as portas. Se você achar que não há nada além destas portas, há outros andares. E, se você não achar nada lá, não se preocupe, suba mais outro lance de escada. Enquanto você não parar de subir, as escadas não terminarão, embaixo de seus pés, elas continuarão crescendo para cima.”
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