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Entrevista: Zygmunt Bauman

18 de Março de 2011
São dois novos livros para o público brasileiro: Bauman sobre Bauman e Vida em fragmentos. Acredita que são duas obras-chave para se entender o seu pensamento?
Sim, acredito que esse é o caso. No curso de conversações iniciadas e mantidas ao longo de um determinado período de vários meses, conduzidas pelo professor Keith Tester, eu tive a oportunidade de olhar para trás, para as circunstâncias que proporcionaram meus estágios sucessivos, continuidades e descontinuidades no desenvolvimento de minhas percepções e diagnósticos em relação à percepção do mundo que habitamos, assim como moldar e remodelar através de nossas ações e omissões. Foi o esforço de Tester em criar essa oportunidade e me obrigar a usá-la para o melhor da minha habilidade. Suas questões/provocações/simulações foram todas, sem exceção, bem escolhidas, bem direcionadas, pretendiam preencher os espaços brancos na minha obra, estabelecer inconsistências exigindo reconsiderações e insistindo nos assuntos insuficientemente desenvolvidos. 
Em relação a Vida em fragmentos, os ensaios reunidos refazem minha trajetória do embate com a idéia de ‘pós-modernidade’ até a seleção da ‘liquidez’ como atributo definidor da sociedade e da vida social em nosso tempo. Esses ensaios relembram as razões para essa passagem e os principais argumentos a seu favor. 

Keith Tester afirma, na introdução de Bauman sobre Bauman, que alguns fatores da sua vida foram essenciais para a construção dos seus conceitos, como por exemplo, o livro escrito por Janina Bauman sobre o Holocausto. Você concorda com essa afirmação?
Sim, completamente... O livro de Janina (publicado pela Zahar com o título Inverno na manhã: Uma jovem no gueto de Varsóvia) foi, por assim dizer, o impulso que me colocou na linha de estudo perseguida por mim nos últimos 20 anos (assim como eu coloquei para mim mesmo em resposta a pergunta sobre as principais influências em meu trabalho: ‘Antonio Gramsci me ensinou o que, Georg Simmel como e Janina porque razão...’

Segundo essa visão, acredita que as trajetórias de vida de filósofos e pensadores sempre acabam por influenciar a escolha dos objetos de estudo que escolhem?
Sem dúvida – poderia ter sido completamente diferente... Elas não poderiam deixar de influenciar (afinal, o que fazemos em ciências humanas é, acima de tudo, a reciclagem de nossas experiências de vida e observações, encontrando as descobertas e iluminações que acompanham esse curso) – mas influência não significa determinação... A vida pessoa proporciona o material bruto, mas reciclar isso é o trabalho e a tarefa dos pensadores – e são eles, ‘os filósofos e pensadores’, como você citou, que precisam arcar com as responsabilidades em relação à qualidade dos resultados, bons ou maus...

A questão central que move os ensaios de Vida em fragmentos (como exercer uma atitude moral que leve em conta o outro em um mundo fragmentado, ditado pelas leis de consumo?) continua sendo um problema a se pensar?
Sim, novamente – os ensaios não perderam a sua atualidade... há pouco o que mudaria em sua mensagem se fosse escrevê-los quinze anos depois. Continuamos habitando o mesmo tipo de mundo e a questão da atitude moral no cenário fragmentado de uma sociedade de consumidores é marcada agora por desafios semelhantes, a semelhante tarefa grandiosa, ciladas e armadilhas parecidas, como há quinze anos atrás. O que eu fiz nesses últimos quinze anos foi continuar desenvolvendo essas ideias, as tendências registradas em Vida em fragmentos, continuar a desvendar e a desenvolver plenamente sua potência – desafios éticos, oportunidades e ameaças...
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