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Entrevista: Teresinha Costa

30 de Abril de 2010
O complexo sempre esteve associado ao mito de Édipo. Que tipo de confusões essa associação costuma gerar no grande público? 
Freud se baseia no mito da tragédia grega para construir sua teoria do complexo de Édipo. O mito é uma ficção, é a forma que o sujeito encontra para responder os enigmas da sua existência: quais sejam, às questões sobre a vida, a morte, o nascimento, o sexo. Na obra de Freud, o conceito do complexo de Édipo não surge exatamente igual ao mito, pois trata-se de uma metáfora que Freud utiliza para abordar a inscrição da castração e da Lei simbólica no psiquismo de cada sujeito. A Lei simbólica está referida à psicanálise como a noção de Lei primordial, fundadora das leis sociais. Ela equivale ao que Freud nomeou como Lei da proibição do incesto. O gozo que o sujeito aspira, figurado pelo incesto da mãe-filho, não é permitido em razão da intervenção da instância paterna, representada pelo Pai simbólico. O pai Simbólico não é o pai da realidade, não é o pai biológico. O pai simbólico é aquele que nomeia, dá seu nome, e, por esse ato, encarna a Lei. Essa é uma das confusões que as pessoas costumam fazer quando se referem ao complexo de Édipo.

Sua intenção foi acompanhar o complexo de Édipo desde sua concepção, por Freud, até os dias de hoje? 
Sim. Para acompanharmos a sistematização e o desenvolvimento do conceito de complexo de Édipo é necessário percorremos toda a obra freudiana, pois não encontramos em sua obra um artigo dedicado exclusivamente à sua teorização. Depois de Freud outros teóricos se debruçaram sobre o estudo do complexo de Édipo contribuindo para o desenvolvimento do conceito, e trazendo, portanto, uma maior compreensão sobre a constituição da subjetividade.

O que mudou na forma como os psicanalistas trabalham este conceito nos dias de hoje? 
Por volta dos anos 1950 e 1960, imperou no meio psicanalítico pós-freudiano uma inflação das teorizações a respeito da função materna, considerada por grande parte dos psicanalistas responsável pelas dificuldades e sucessos com os quais os sujeitos esbarravam em suas vidas. Posteriormente, a grande preocupação passou a ser restaurar a “autoridade paterna” considerada enfraquecida no seio da família. A partir de Lacan, entendemos que a tese da relação diádica, simbiótica entre a mãe e a criança não se sustenta. Entre a mãe e a criança há que se introduzir um terceiro elemento que é o falo. Da mesma forma, foi Lacan que recuperou a importância da função do pai para a psicanálise. Para Lacan, a função fundamental do Édipo aparece como coextensiva à função paterna. Essa função deve ser entendida como algo radicalmente distinto da presença paterna, ou seja, não importa se pai está ou não presente na família, ou ainda se é ou não um bom pai. A função do pai no complexo de Édipo está muito além da sua conduta, do que ele aparenta ser ou do papel que desempenha na família. Não importa se ele se ausenta com freqüência ou se fica em casa para cuidar das crianças quando a mãe sai para trabalhar. O que Freud e Lacan vêm nos mostrar é que para a psicanálise, o pai é uma entidade simbólica que ordena uma função, possibilitando ao sujeito assumir sua posição sexual. Em outras palavras, devemos distinguir o “papel social” do pai da função simbólica da qual os pais são os representantes. A questão que se coloca aqui não diz respeito a um personagem, mas a um significante.

Ao fazer uma releitura do complexo de Édipo em Freud, Lacan opera uma mudança na concepção ambientalista da função dos pais junto à criança, para uma concepção mais estrutural da família.

Que autores ao longo da história foram essenciais para a problematização do complexo de Édipo? 
Depois de Freud, muitos teóricos se debruçaram sobre o estudo do complexo de Édipo e sua importância na constituição do sujeito, alguns divergindo até o ponto de ruptura como Jung e Adler, outros operando modificações a partir da prática clínica, tal como ocorreu com Melanie Klein. Mais recentemente, Lacan propôs um retorno a Freud, fazendo uma reavaliação teórica da doutrina, sendo seguido por outros psicanalistas franceses tais como Jacques-Alain Miller, Bernard Norminé, Philipe Lacadée e Marie-Jean Sauret. Esses últimos irão matemizar essa nova concepção da posição paterna em Lacan, enfatizando a divisão mãe-mulher.
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