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Entrevista: Sonia Leite

15 de Abril de 2011
Ao tratar do tema ao longo da história, é possível chegar a que conclusões? Em sua opinião, houve uma valorização da angústia que não era tão enfatizada anteriormente?
Ao fazer uma reflexão sobre o tema, ao longo da história, a proposta do livro foi destacar que a angústia é algo estrutural à experiência humana. Por isso a psicanálise indica que a angústia é aquilo que fundamenta o sujeito e possibilita o nascimento do desejo. Ou seja, para que uma pessoa faça suas próprias escolhas, descubra seus limites e o seu caminho na vida é inevitável o encontro com a angústia. Esse é, talvez, um dos aspectos mais delicados e importantes da clínica psicanalítica, pois, envolve o reconhecimento do desamparo e da fragilidade do sujeito. Além disso, a experiência da angústia aponta para o fato de que a vida precisa ser constantemente reinventada porque, de um modo ou de outro, somos sempre atravessados pelo imprevisível.Na atualidade se, por um lado, o tema tem estado muito presente no campo social e, especialmente, na mídia, por outro, tende-se a considerá-lo, na maioria das vezes, apenas um indício de "doença". A difusão dessa perspectiva pode conduzir as pessoas a um ideal de cura mais do que ao reconhecimento e valorização desse afeto. 

Você é contra o uso de remédios para o tratamento de uma crise de angústia? Essa alternativa (de recorrer aos medicamentos) é uma marca do tratamento da angústia na atualidade?
O uso de medicamentos para apaziguar as crises de angústia é um recurso clínico que tem o seu valor e a sua importância, mas, é preciso reconhecer, também, as suas limitações. Na atualidade, o que chama a atenção é a tendência a uma supervalorização dessa modalidade de tratamento, o que acaba por criar a falsa idéia de que seria possível banir a angústia da vida humana. Efetivamente, o que parece caracterizar a nossa época é uma espécie de esperança de que possa existir “um medicamento para cada tipo de sofrimento”, indicando uma busca de ausência total de mal-estar psíquico. Mas como excluir alguma coisa que é parte constitutiva da vida? É surpreendente verificar, por exemplo, como as dificuldades mais comuns que sempre fizeram parte da infância e da adolescência tem sido tratadas quase que, exclusivamente, com medicamentos, atingindo faixas etárias cada vez mais precoces da infância. A experiência psicanalítica, por outro lado, aposta no fato de que é pelo reconhecimento e não pela exclusão da dor psíquica que a pessoa pode encontrar um modo próprio de construir a vida e de ser feliz.

De 1978 para 1993, o número de transtornos mentais classificados passou de trinta para cem categorias. Todas essas especificações seriam, na sua opinião, um exagero de classificações ou um avanço nas pesquisas psiquiátricas?
A prática psiquiátrica, desde o seu nascimento no século XIX, é baseada na classificação das doenças e esse modelo tem a sua importância para o tratamento do sofrimento psíquico. O que se verifica é que a chamada psiquiatria clássica sempre aliou, ao modelo classificatório das doenças, uma preocupação com a etiologia das patologias, o que permitiu a delimitação de importantes quadros clínicos. Essa perspectiva foi fundamental, não só para a distinção de certas categorias clínicas, mas, também, para o nascimento da clínica psicanalítica com sua inovadora abordagem dos problemas psíquicos. Na atualidade, porem, a psiquiatria acabou por perder muito do seu caráter clínico-investigativo pautando-se numa abordagem, exclusivamente, pragmático-operativa e levando ao extremo a perspectiva classificatória das patologias mentais. A clínica psicanalítica, ao valorizar o discurso do sujeito, se apresenta como contraponto fundamental à psiquiatria contemporânea, pois relativiza as categorias médicas universais introduzindo a especificidade da história do sujeito.

Abordar a forma como escritores famosos trataram do tema em suas obras é, de certa forma, desmistificar o tema? 
A arte, de um modo geral, é uma fonte inesgotável de conhecimento sobre as principais questões da existência. Freud, assim como Lacan, nunca deixou de enfatizar que os poetas e os escritores eram os nossos grandes mestres no que diz respeito à transmissão do inconsciente e dos temas humanos fundamentais. Por isso, em vários momentos, ao introduzir os temas da psicanálise, não se furtam a recorrer às mais importantes obras literárias para expressar as questões primordiais da experiência do sujeito. O que caracteriza, especialmente, o artista criativo é a capacidade de despertar nas pessoas as mais profundas emoções enriquecendo o contato delas, consigo mesmas e com o mundo. A linguagem poética nos permite, assim, vivenciar o trágico que permeia a vida incluindo aí, paradoxalmente, o belo que faz parte da experiência estética. O recurso a alguns escritores, utilizado no livro, foi uma maneira de reencontrar na literatura essa forma privilegiada de transmissão sobre o que é o afeto da angústia.
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