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Entrevista: Rossano Pecoraro

25 de Agosto de 2009
Como foi escrever outro livro para a coleção Passo-a-passo?
Bom... Acompanhei, como leitor de “coisas filosóficas”, o surgimento e a consolidação da coleção. Confesso que logo gostei. De fato, ela veio preencher uma lacuna no mercado editorial brasileiro, isto é, a relativa ausência entre nós de "obras introdutórias de base", rigorosas, atualizadas e acessíveis. Como a senhora sabeFilosofia da história é o meu segundo livro nessa coleção precedido por um texto sobre Niilismo, lançado em 2007. Escrevê-los foi uma bela e gratificante experiência; muito intensa e desafiadora. Como não existia muito material bibliográfico sobre os temas, tive de delinear o estado da arte da questão, ler, e reler textos, retomar antigas leituras, procurar driblar, como dizia Gilles Deleuze, a dupla ignomínia do "erudito" e do "familiar", dialogar não só com os grandes filósofos da tradição mas também com seus comentadores. E, sobretudo, assumir o risco, e a responsabilidade, de individualizar e explicar autores e obras essenciais para a fixação de um cânon não arbitrário para o tema (ou disciplina) objeto do meu estudo.

É mais difícil ter que dar conta da definição de uma disciplina como a filosofia da história?
Acredito que não. Qualquer tipo de trabalho rigoroso e documentado em torno de um determinado conjunto de questões enfrenta os seus estorvos, as suas pedras no caminho. No caso específico de Filosofia da história a maior dificuldade foi, talvez, a de definir os limites e as peculiaridades dessa disciplina, ou melhor, desse âmbito histórico-conceitual da filosofia ocidental.

O senhor procurou encontrar um equilíbrio entre a história da disciplina e os muitos pensamentos da área?
Sim, sem dúvida. Esse equilíbrio é fundamental. Na contramão das ideias dominantes em grande parte da pesquisa filosófica brasileira, sempre defendi a necessidade de não separar a filosofia da sua história, o trabalho especulativo e conceitual em torno de um determinado tema da tradição de pensamento que a ele já se dedicou, a busca por alguma faísca de "originalidade" ou “avanço” teórico do confronto com os monumentos filosóficos erguidos pelos nossos clássicos. Talvez seja essa convicção, tão inabalável quanto sofrida, a guiar tudo o meu labor de estudo e escrita.

O senhor acredita que falar em filosofia da história hoje é tocar em questões atuais que estão sendo discutidas em muitas outras disciplinas (ainda mais em uma época em que os limites entre as disciplinas e áreas de estudo parecem cada vez mais borrados)?
Certamente. Uma vez que o elemento essencial e constituinte da Filosofia da históriaé a questão do sentido, da finalidade da história da humanidade e das suas construções políticas, sociais, culturais, religiosas, etc. discutir os problemas, as teorias e as perspectivas que a atravessam, nada mais é do que dialogar com vários campos de estudo, contribuindo deste modo para uma abordagem inter e multidisciplinar das questões e das urgências do mundo contemporâneo. Fazer filosofia da história significa lidar, por exemplo, com as concepções de tempo e a teologia, o niilismo e a secularização, a teoria política e a globalização, a ideia do "fim da história" e o "pensamento 89"...
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