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Entrevista: Richard Wrangham

05 de Março de 2010
Seu livro foi eleito por alguns críticos como o melhor de 2009 e recebeu resenhas excelentes da imprensa. O senhor esperava um impacto como esse? 
Ninguém podia imaginar uma recepção tão entusiasmada quanto a que Pegando fogoteve, então é claro que estou emocionado com a forma como foi recebido. Meu objetivo foi apresentar novas ideias de uma forma que pudesse atrair ao leitor comum e, ao mesmo tempo, bem fundamentadas na ciência, de forma a ser convincente à comunidade acadêmica. Claro que eu espero que os leitores sejam atraídos a Pegando fogo não tanto porque a teoria é revolucionária (o que certamente é), mas porque eles acharam convincente! 

Como foi a recepção dos estudiosos para a teoria do cozimento? 
Muitos estudiosos foram muito positivos. Mas naturalmente há alguma cautela em relação a uma ideia nova. A principal objeção veio de arqueólogos e paleoantropólogos, que pensam que a fraca evidência sobre o controle do fogo na era Paleolítica inferior (especialmente além de cerca de 400.000 anos) sugere, então, que o fogo não foi controlado. Apesar disso, ninguém desafiou as evidências biológicas que apresentei em Pegando fogo, o que indica de forma consistente que os primeiros seres humanos eram adaptados a cozinhar sua própria comida. Assim, a arqueologia sugere um tardio controle do fogo, enquanto a biologia sugere um precoce controle do fogo. Assim como o arqueólogo Will Roebroeks afirmou, aqui temos um caso de "fricção científica". Espero que ao longo dos próximos anos, alguns novos e emocionantes elementos surgirão para ajudar a resolver o problema.

O período vivendo com chimpanzés foi importantes para as conclusões apresentadas no livro? 
Pegando fogo cria um argumento muito forte de que a comida cozida fornece mais calorias do que a crua, e que humanos são biologicamente adaptados à inclusão de alimentos cozidos em sua dieta. Com essas importantes e facilmente aceitas conclusões, eu sou algumas vezes perguntado sobre a razão de ter demorado tanto para que as pessoas passasem a pensar no papel do cozimento para a evolução humana. Há provavelmente muitas respostas, incluindo o fato de que o papel das mulheres como cozinheiras é facilmente esquecido, porque as atividades masculinas tendem a ser mais valorizadas. Um fator adicional é que a maioria das pessoas simplesmente acredita que não há nada de especial em riqueza calorica na comida cozida, desde que somos perfeitamente capazes de comer e digerir um monte de comida crua. Mas como uma pessoa que viveu com chimpanzés e comeu quase tudo o que eles comiam, me tornei particularmente desconfiado da inadequação da comida selvagem digerida de forma crua. Então, penso que meu período entre os primatas me ajudou a desenvolver ideias presentes em Pegando fogo. 

Como foi o processo de pesquisa em comunidades adeptas de dietas diferenciadas? O senhor já experimentou por algum tempo algum tipo de dieta, como só comer comida crua? 
Nunca penetrei num regime de dieta crua. Eu como uma comida americana comum, apesar de não comer mamíferos há 32 anos, e tendo a um estilo de dieta mediterrâneo. Em Pegando fogo mergulhei no estudo dos adeptos da comida crua para verificar os resultados na saúde. Sou cheio de admiração aos adeptos da comida crua. Quando administrada com cuidado, dietas de comida crua podem levar a uma série de importantes vantagens para a saúde e uma tremenda satisfação pessoal. Um dia, quando tiver mais tempo de focar na minha dieta, vou tentar ser um adepto da comida crua por algumas semanas, pelo menos. Mas não sei se terei a força de vontade necessária para resistir à comida cozida.
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