Zahar

Blog da editora

Entrevista: Raj Patel

18 de Fevereiro de 2011
O que o motivou a iniciar a pesquisa que resultou no livro? Qual o método escolhido para investigar a questão?
A forma como a mídia tratou da crise financeira foi profundamente insatisfatória. Por exemplo: quando perguntado sobre as causas da quebra, Alan Greenspan admitiu ao congresso americano que havia uma “falha” na ideologia que ele achava que explicava o mundo nos últimos 40 anos. A mídia reportou isso como uma espécie de falha pessoal, em vez do que era: uma acusação da ideologia do mercado livre por um dos principais defensores do sistema financeiro global. Se fôssemos levar a sério Greenspan, como eu acho que deveríamos, entenderíamos essa crise de forma mais profunda. Eu escrevi o livro pensando em ficar longe dos jargões, com o objetivo de atingir os leitores que sentiam que havia algo que a mídia deixou sem questionar, mas não sabiam o que poderia ser isso exatamente. 

Em sua opinião, como uma pessoa pode pensar nos valores reais por trás de cada serviço e produto que compra?
É difícil de saber o verdadeiro custo de, por exemplo, os eletrônicos que compramos. Quanto mais notícias surgem sobre as mortes no Congo, onde muitos dos minerais essenciais para os componentes eletrônicos são encontrados, ou a repressão na China, onde muitos elementos raros da terra vêm, mais claro fica que o custo dos nossos investimentos pode ser medido em vidas humanas. Uma boa forma para entender os custos é a compra de produtos produzidos localmente, com um trabalho que está dentro do controle de produção e com processos de produção que procuram atingir zero desperdício e observância aos direitos humanos. Alguns sistemas de produção de comida têm conseguido atingir isso. Mas os custos ocultos não são o mesmo que ‘valor’, e eu passo algum tempo no livro sugerindo que há algumas coisas que nós damos valor, mas não deveríamos dar preço. Em vez disso, precisamos definir o valor não através de aquisições, mas através de tomada de decisão social. Isso nos afasta de questões sobre compras e nos leva muito mais às questões de cidadania.

O senhor emprega essa lição em sua vida pessoal?
Acabei de ter um filho e me vi consumindo mais do que jamais pensei que poderia. Mas, sim, eu tento empregar essas lições na minha vida pessoal, primeiro simplesmente tentando consumir menos – mas especialmente quando se refere a comida, eu compro produtos locais, comida produzida e vendida cooperativamente, onde eu possa ter um pouco de segurança sobre os custos externos das minhas compras. Mas também estou envolvido em movimentos locais de comida onde eu vivo, defendendo mudanças substanciais, para que, por exemplo, empresas multinacionais como o MacDonald´s não possam dar brinquedos grátis com comida para crianças, recrutando-os para uma vida cara de maus hábitos alimentares.

Em sua opinião, a grande lição do livro é a defesa de que as pessoas precisam ter um senso crítico em relação ao consumo?
Se a pergunta é sobre de que defesas a pessoa precisa quando está consumindo, há duas questões. A primeira é: Por que eu acho que preciso disso? É uma pergunta auto-defensiva contra os excessos do marketing moderno. A segunda pergunta é: Há formas de conseguir o que eu necessito sem propriedade privada? Como as civilizações antigas e o último vencedor do prêmio Nobel entendem, nós podemos controlar os nossos recursos mais valiosos de forma mais sustentável, sem transformá-los em commodities. O livro traz algumas ideias práticas sobre como pode ser uma economia sustentável do século 21.
Categorias: Entrevistas