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Entrevista: Pedro Duarte

24 de Junho de 2011
Você acredita que, apesar da importância dos primeiros românticos alemães para a história do pensamento, este período do romantismo permanece ainda obscuro para a maioria das pessoas? Foi o que motivou a escrita de seu livro?
Os primeiros românticos alemães são obscuros na mesma proporção em que o romantismo mais genérico é famoso. Explico-me. O período romântico ainda é obscuro, em muitos aspectos, para nós. Isso acontece, entretanto, pois outros aspectos dele são tão valorizados que os tomamos como sendo os únicos. Toma-se o romantismo, por exemplo, como o simples sentimentalismo emocional da subjetividade psicológica. O que me levou a escrever o livro, contudo, não foi nem resgatar o romantismo de um suposto esquecimento e nem corrigir uma eventual compreensão estreita do que ele fez. No começo, havia só o entusiasmo com a descoberta de um pensamento que aproximava a arte da filosofia – o que antecipava uma linha de força importante do mundo intelectual do século XX. E era disso que eu queria falar. Percebi, entretanto, que a própria mistura entre arte e filosofia era um motivo pelo qual certa parcela do romantismo tornara-se obscura, já que institucional e academicamente isso trazia um problema: muitos filósofos acham que o caráter poético faz esse pensamento pouco sério e muita gente de arte acha que seu caráter reflexivo adultera sua poesia. 

Você pode falar mais sobre esses limites e não-limites entre poesia e filosofia?
Para os primeiros românticos, quanto mais poética é uma obra, mais filosófica ela é, assim como a arte torna-se mais aguda quanto mais reflexiva é. Possivelmente, toda essa situação – pela qual o romantismo, mesmo tendo constituído parte decisiva da cultura moderna, continua em certa medida mal entendido – talvez aumente o interesse que tem o livro, mas não foi o que me motivou a escrevê-lo. Se algo nesse sentido teve importância, foi apenas a sensação de que, com os primeiros românticos, guardava-se um pensamento cujas possibilidades tinham sido encobertas pela história da filosofia formulada logo depois deles por Hegel e que ainda hoje prevalece. Hegel fez com que tudo que veio antes dele parecesse apenas etapas de um progresso inevitável da história. Eu sugiro que, se hoje experimentamos um ocaso da época moderna, tem sentido compreender que, já em seu nascimento, a própria modernidade fez a crítica de si mesma e buscou outro caminho para nós, diferente daquele que se tornou predominante. Esse caminho tinha a ver com arte, a imaginação, a linguagem, a poesia. 

Encontrou dificuldades em traçar essa trajetória? Quais?
Minhas dificuldades foram mais internas ao trabalho intelectual do que externas. Hoje, já há obras clássicas sobre os românticos escritas por grandes pensadores: Walter Benjamin, Martin Heidegger, Maurice Blanchot, Peter Szondi, Philippe Lacoue-Labarthe e Jean-Luc Nancy, por exemplo. Essas leituras, entre outras, me ajudaram a encarar o lugar de solidão que é sempre onde se decide o crucial de um pensamento, pois este, como dizia Platão, consiste em um diálogo de si consigo mesmo. No que diz respeito à escrita do livro, o que há de difícil nos românticos é seu estilo fragmentado. Não há um sistema fechado que possa apenas ser descrito em seus métodos, conclusões e cadeias de raciocínios. Exige-se um envolvimento interpretativo forte, o que é difícil, mas muito bom, pois há uma liberdade de leitura maior do que estamos acostumados em filosofia. Penso, aliás, que o leitor da interpretação que faço no livro deve ter isso em vista, pois ele mesmo pode entrar em uma relação desse tipo com o texto, que é mais viva. 

Foi preciso uma visão do conjunto dos textos destes pensadores e de todo o contexto da época para chegar à grande contribuição destes autores: a união entre arte e filosofia pela primeira vez na história?
Talvez arte e filosofia já tivessem tido, aqui e ali, certas aproximações em nossa história, mas jamais de forma tão intensa e programática. Pois o que governou a relação entre elas foi antes, como já dizia Platão, uma inimizade. Nesse sentido, é claro que a originalidade da posição romântica ao juntar a arte e a filosofia só pode aparecer quando temos em vista o contexto em que eles se inserem. Toda a filosofia moderna logo depois de Kant, ou seja, na passagem do século XVIII para o XIX, tem na arte um objeto de reflexão importante. Mas o que me parece ser a singularidade dos primeiros românticos foi que a arte, para eles, não era apenas um tema de estudo da filosofia, mas também um componente do próprio modo de ser da filosofia, que é concebida por eles como linguagem, como escrita. Logo, a filosofia também é uma espécie de literatura, não tanto por ser uma ficção, mas por precisar ser uma expressão em palavras tanto quanto a poesia, por exemplo. Nesse sentido é que digo que esses românticos não fizeram apenas uma filosofia da arte, como Hegel, mas também uma arte do filosofar, ou seja, um exercício no qual a forma artística de expressão era tão decisiva quanto a ideia ou o conteúdo expresso. Quanto à questão da visão de conjunto dos textos dos românticos, acho que, embora a tenha buscado, aprendi com eles que o conjunto nunca junta suas partes de forma perfeita, ou seja, o conjunto é o que, pela sua própria dinâmica, se desconjunta, se parte, se fragmenta, escapando das tentativas de totalização que as interpretações em geral estão buscando. O conjunto de textos românticos é algo vivo e, enquanto tal, está sempre em movimento.

Acredita que escreveu um livro aberto, que pode ser lido a partir de diversos pontos? De alguma forma, seguiu os passos desses primeiros românticos, sem muitas fronteiras delimitadoras?
Não pretendi no livro ter uma escrita que imitasse a dos românticos. Acho isso um equívoco. Mas é claro que decidi falar sobre eles, desde o começo, porque me identificava com certos princípios e algumas teses – ainda que não com tudo. Portanto, há algumas exigências românticas quanto a escrever e a ler que espero que meu livro satisfaça. Estou certo, por exemplo, que os capítulos possuem uma autonomia ensaística em relação ao todo, ainda que tragam sempre sugestões sobre questões tratadas em outros. Sob este aspecto, o livro pode, sim, ser lido a partir de diversos pontos. Quanto à questão de traçar fronteiras, acho que a questão não precisa ser aboli-las, mas sim admitir que elas não são tão nítidas quanto às vezes gostaríamos. Eu faço delimitações e busco certas definições no meu livro, mas não como algo já dado e nem com pretensões absolutas. Não sei como seria possível pensar sem esses dois movimentos. Tendo em mente ainda a metáfora da fronteira, podemos imaginar que, se há um país da filosofia e um da arte, há, contudo, habitantes que se instalam na fronteira ou nas suas imediações, ao contrário de outros, que vão morar bem longe dali, acreditando assim que vão ter de forma mais pura a identidade deste ou daquele país. Os românticos foram habitantes das fronteiras, em especial daquela entre arte e filosofia. Passavam com tanta naturalidade de um território a outro que, em certos momentos, nem sabiam mais qual a sua nacionalidade original. Eram pensadores da filosofia e da arte ao mesmo tempo.
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