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Entrevista: Michael Meyer

27 de Agosto de 2009

O senhor presenciou de perto os fatos que culminaram com a queda do Muro de Berlim. Foi preciso passar 20 anos para poder analisar de forma isenta essa história? 

Eu escrevi a primeira versão do livro em 1999, em Berlim. "Tarde demais para eventos atuais, muito cedo para a história", disse o editor. Então, esperei o 20º aniversário da queda do Muro. Eu descobri que há uma grande diferença entre dez anos e vinte anos. Em seguida, os Estados Unidos estavam muito presos à ideia de triunfo na Guerra Fria. "Nós vencemos!" Ao longo da década de 1990, as pessoas falavam animadamente de “império americano” e “fim da história”. Hoje a história está de volta. Temos uma visão muito mais moderada sobre os limites do poder americano. Era uma linha reta até a noção equivocada de que a América venceu a Guerra Fria, em virtude da força militar e uma política externa de confronto, até a nossa desventura no Iraque. Com a vantagem de uma visão retrospectiva de vinte anos, você pode ver claramente os perigos de reescrever a história ou comprar uma versão vitoriosa da história. Nesse sentido, foi efetivamente necessário duas décadas para compreender o que realmente aconteceu em 1989.

Só hoje podemos constatar os efeitos e a verdadeira importância desses acontecimentos? 

Aquele ano da revolução foi memorável. Mudou o mundo literalmente e não metaforicamente. Foi o fim de décadas de divisão geopolítica: Oriente X Ocidente, o mundo “livre” contra o não livre. E preparou o terreno para a nossa era moderna da globalização e do grande boom econômico, que tirou bilhões de pessoas da pobreza. Tornou possível a ascensão da Ásia e do contínuo deslocamento de poder trans-Pacífico, que vai dominar o século XXI. A Guerra Fria afetou muitos povos do mundo, mas o seu fim afetou muitos, muitos mais. Por isso é tão importante entender esses acontecimentos.

 Qual o fato mais marcante vivenciado pelo senhor? Foi a queda do Muro ou há recordações mais fortes? 

Curiosamente, a minha memória mais vívida foi bem no início, no final de 1988 cerca de um ano antes da queda do Muro. Eu tinha ouvido que os comunistas da Hungria estavam permitindo a grupos políticos formar e experimentar a democracia. Gostaria de saber se isso poderia servir de base a uma oposição política e, então, fui até Budapeste para ver o que eu iria ver. Uma luz me veio à cabeça durante uma reunião com o novo ministro da Justiça da Hungria, um comunista experiente e conhecido, que tinha sido encarregado de encarcerar os dissidentes e os inimigos do povo. Imagine a minha surpresa quando esse começou a falar de democracia e eleições livres? "Ah, sim", eu disse. "E se você perder?" "Então, nós ficaremos por baixo", o homem disse, como se ceder o poder fosse a coisa mais normal do mundo para um regime autoritário soviético. "Você não acredita em mim?", ele perguntou, vendo a descrença na minha cara. Então, ele abriu uma gaveta e pegou um panfleto, que acenou sobre sua cabeça. Era uma cópia da constituição dos Estados Unidos e a relação de direitos. “Marque a minha palavra”, ele disse. “Esta será a constituição da Hungria”. O cabelo ficou de pé na parte de trás do meu pescoço. Bem ali, eu sabia que algo histórico estava acontecendo e que iria mudar o nosso mundo. 

 Foram necessárias novas entrevistas e pesquisas, ou suas anotações, matérias e memórias foram o suficiente para escrever o livro? 

 As principais fontes para o livro foram meus originais cadernos de anotações, cheios de cenas dos bastidores, entrevistas e observações da época. Complementei com entrevistas profundas com dirigentes dez anos depois. Eles reconstruíram cenas, falaram sobre o cenário interno dos eventos mais importantes e ajudaram a preencher as muitas lacunas que, anteriormente, mantinham-me (e mais outros) incapaz de ver a foto ampliada e contar a história completa. Tive sorte entre os correspondentes. Eu podia ir por toda parte pela região, com a justificativa de reportar com profundidade. Mas, mesmo assim, não podendo estar em dois lugares ao mesmo tempo. Isso significava a necessidade de voltar àqueles que participaram dos eventos. E, claro, vinte anos depois, muita informação classificada como exclusiva do governo, estava disponível – análises da CIA, por exemplo – que nenhum de nós tinha na época. Tudo isso dá uma perspectiva que era impossível no momento.

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