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Entrevista: Keith Tester

21 de Janeiro de 2011
Em Bauman sobre Bauman, o senhor afirma que os textos de Bauman não pertencem mais ao autor, tem sua vida própria. Sua afirmação significa que os conceitos desenvolvidos pelo pensador provocaram uma grande mudança no pensamento e não se limitam ao terreno da sociologia, influenciam artistas e pensadores de diferentes áreas?
Eu quis dizer isso sim, mas também que, uma vez que os textos são publicados, eles passam a pertencer aos leitores e que o significado desses textos ultrapassam as intenções do autor ou o que este havia imaginado. Bauman, eu acredito, gostaria que seus textos estimulassem discussões e diferentes formas de pensar e atuar no mundo. Para este propósitos, eles precisam pertencer ao leitor – sempre me impressionou como Bauman – ao contrário de alguns pensadores considerados grandes – nunca diz ‘ você me entendeu mal’. Seu trabalho é prodigioso e confiante, mas também possuidor de um tipo de calor, humanidade e modéstia. 

Segundo essa visão, não seria um exagero dizer que existe um antes e um depois de Bauman?
Eu acredito que isso é certo. Eu me lembro vividamente da leitura de Modernidade e Holocausto, quando foi publicado pela primeira vez e ter ficado chocado ao descobrir que a sociologia podia enfrentar as principais questões – tudo mais parecia pequeno e provinciano em comparação. Isso pode parecer estranho agora, agora o livro sobre Holocausto é tão conhecido, mas na época foi uma bomba. 

Qual foi a importância do pensamento de Bauman para a sua carreira?
O pensamento de Bauman – assim como sua orientação pessoal – foram fundamentais para a minha carreira. Ele supervisionou a minha pesquisa de doutorado – ele era duro, mas sempre leal e sua supervisão foi mais no intuito de construir o caráter do sociólogo, do que guiando leituras e assim por diante – isso é o que posso ver agora. Isso faz com que Bauman soe distante e diferente – ele não era e não é. Ele era – e permanece – um grande professor no melhor significado do termo. Ele me deu coragem para ‘usar meu próprio entendimento’, e eu acho que isso é o que o seu pensamento devia significar para todos nós – pensar com isso, contra isso, mas usando nosso próprio entendimento para falar sobre isso. Mas aqui é importante que fique claro que eu também devo muito a Janina Bauman, a esposa de Zygmunt: ela era uma grande pessoa e uma escritora em seu próprio direito e dela eu continuei a aprender importantes verdades.

Como foi a oportunidade de fazer esse livro? Como foi ouvir Bauman falar sobre sua própria vida e trabalho? Isso o fez mudar sua forma de pensar sobre ele?
Do que eu me lembro agora a idéia inicial do livro nos foi sugerida, e Bauman e eu rapidamente concordamos que era algo que gostaríamos de fazer. O único problema que tivemos trabalhando no livro foi sua mente é tão rápida e abrangente, que a minha mente embotada muitas vezes tinha que lutar para acompanhar. Ele foi mais aberto do que eu poderia imaginar ao responder às minhas perguntas (algumas das quais, para ser honesto, eu achava que eram impertinentes), e foi um privilégio poder trabalhar tão próximo a ele. Se trabalhar no livro mudou minha forma de pensar sobre ele? Eu aprendi a admirar o homem ainda mais e a ver o trabalho de uma forma mais desafiadora e escorregadia que eu imaginava. Esse é um livro que eu relembro com um sorriso.
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