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Entrevista: Johanna Oksala

23 de Março de 2011
Na sua opinião, qual a melhor forma de conhecer a obra de um pensador? Ler todos os textos de forma cronológica seria o recomendado? Qual método escolheu para o seu livro?
O método que escolhi para o meu livro foi o cronológico. Há muitas vantagens. Possibilita que você tenha um senso de desenvolvimento do pensamento do filósofo ao longo do tempo e considerar como certas ideias se tornam mais complexas ou, ao contrário, como elas algumas vezes esgotam o seu potencial e desaparecem. Também é possível oferecer uma avaliação ponderada de certas questões interpretativas, tais como se devemos distinguir diferentes fases, quebras ou mudanças no projeto. De qualquer forma, no caso de um pensador como Foucault eu poderia ter perfeitamente escolhido uma abordagem temática. Como eu ressaltei na introdução, Foucault concebeu os seus livros como uma caixa de ferramentas que os leitores podem remexer para encontrar a ferramenta que necessitam para pensar ou aplicar. Tenho certeza de que ele ficaria bastante feliz por nós por lermos seus livros em qualquer ordem que escolhêssemos. Ele também era bastante cético sobre a ideia de que, ao interpretar textos filosóficos, nós devemos tentar encontrar qual a intenção do autor e quais eram suas experiências pessoais na época em que os estava escrevendo. A muito repetida expressão “morte do autor” significa que os textos precisam falar por si mesmos. Então, eu sugeriria que, se você está interessado no pensamento de Foucault, apenas pegue qualquer de seus livros e comece a ler!

A senhora é uma grande especialista na obra de Foucault. Que textos optou por selecionar para incluir no livro?
Não penso em mim como uma grande especialista em Foucault e isso não é uma falsa modéstia, acredite! O que torna Foucault um pensador tão fascinante para mim é que eu nunca tive a sensação de, de alguma forma, dominar o seu trabalho. Ele sempre me surpreende e me faz repensar coisas que eu acreditava já saber.
Escrevendo este livro, a parte mais divertida foi selecionar os extratos que abrem os capítulos. Alguns deles eram óbvios, até escolhas previsíveis: eu senti que tinha que incluir parágrafos que se tornaram ícones. Eu também queria incluir algumas citações mais difíceis que no meu ponto de vista capturam ideias-chaves e as articula com excepcional precisão e estilo. E eu também queria incluir algumas das minhas favoritas!

Na sua opinião, Foucault mudou o pensamento ocidental? Qual seria sua principal contribuição?
Na tentativa de acessar a importância do pensamento filosófico ou a pesquisa acadêmica de forma mais genérica, as pessoas algumas vezes evocam o critério do “ impacto” – se o pensador teve algum impacto na realidade social. Enquanto isso é obviamente problemático para acessar a qualidade do trabalho filosófico baseando-se na utilidade, no caso de Foucault é inegável que o seu pensamento teve um grande impacto nas relações sociais, particularmente no campo da sexualidade. Seus livros mudaram concretamente a vida de inúmeros gays, assim como desafiaram todos nós a repensar nosso entendimento sobre a sexualidade. Em termos puramente teóricos, eu pergunto se sua mais importante contribuição tem sido o seu conceito de poder produtivo. Isso mudou irrevogavelmente a forma como teorizávamos o poder. Até os teóricos políticos que fortemente discordam com ele têm que considerar o conceito e formular seus próprios argumentos sobre poder em relação a isto. E como acabei de me referir, esta concepção de poder acabou por ser uma ferramenta muito eficaz para movimentos políticos como o ativismo gay, mas também em geral, para tentar resistir a várias formas insidiosas de poder que caracterizam o nosso presente.
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