Zahar

Blog da editora

Entrevista: Jen Lin-Liu

30 de Junho de 2009
Há quantos anos está na China? Apesar de ter toda a sua família nos Estados Unidos acredita que encontrou o seu lugar no país de seus antepassados? 
Eu tenho vivido na China há quase nove anos. Mesmo depois de viver aqui há nove anos e sendo etnicamente chinesa, eu ainda não me sinto como se pertencesse à China. Sinto isso porque fui criada e educada nos Estados Unidos e passei os primeiros 23 anos da minha vida na América. Eu sou americana. A maior parte da minha família está nos Estados Unidos e Taiwan. Meu marido é americano, apesar de ele também viver na China por mais de uma década. Apesar de morar aqui, eu nunca imaginei que eu iria me instalar aqui. Depois de ter feito isso, não tenho a intenção de viver aqui permanentemente. Eu não vejo a China como um local onde pudéssemos construir uma família, no seio da comunidade local, devido à diferença de mentalidades da China em relação aos Estados Unidos. Apesar da internacionalização que ocorreu na última década, a China ainda tem um longo caminho a percorrer, em termos de educação, política e desenvolvimento econômico. Por essas razões, eu não escolheria construir uma família na China ou pensar sobre como me tornar uma cidadã chinesa mas eu também considero Pequim minha casa, embora não me sinta completamente integrada. Afinal, agora eu vivo aqui já por um número de anos. Fiz fortes amizades através das minhas aventuras na cozinha, e agora eu tenho uma escola de gastronomia em Pequim, onde os chefs que eu menciono no livro dão aulas de culinária para estrangeiros como eu. Aos poucos também vou investindo na comunidade onde moro. Eu vivo nas vielas estreitas de Pequim, em um antigo bairro ao norte da Cidade Proibida. Tenho conhecido muitos vizinhos.

Gostaria de fazer a mesma perguntava que você fazia aos chefs chineses: como passou a se interessar pela cozinha?
Fiquei interessada na gastronomia enquanto eu trabalhava como jornalista em Xangai. Eu cobria muitos assuntos e escrevia para a Newsweek e muitas outras publicações, mas eu escrevia sobre tantas coisas e entrevistava tantas pessoas que eu senti que realmente faltava foco na minha vida. Isso foi quando eu decidi começar a escrever sobre um assunto e o assunto que eu escolhi foi comida, porque é um tópico tão importante na China. É uma parte acessível da China - afinal, todo mundo tem que comer - e eu percebi que poderia conhecer todo tipo de gente, se eu explorasse a comida. Mas eu não sabia nada sobre cozinhar! Então, não muito tempo depois de me instalar em Pequim, decidi começar a ir a uma escola de culinária no meu bairro para aprender a cozinhar.

Quando foi para a China, sua intenção já foi se especializar na gastronomia chinesa e escrever sobre isso para veículos americanos ou esse foi o caminho encontrado para, depois de cinco anos, enfim conseguir entrar na cultura local?
Acho que minhas intenções eram compreender a comida como uma maneira de compreender o país como um todo. República Gastronômica da China é mais do que apenas sobre alimentos – a comida serve como um veículo para explorar tantos outros aspectos da China. Eu discuto a história através do meu professor de gastronomia, que foi enviado para o campo durante a Revolução Cultural. Eu vou contar a história dos imigrantes através de um dos meus mestres de cozinha, que migrou de uma fazenda para Pequim e tentou criar uma cadeia de lojas. Eu exploro como a China tem se desenvolvido economicamente e está se abrindo para o mundo, através da história de um chef em Xangai, que abre um restaurante muito na moda internacional. Um dos melhores elogios que recebi sobre o meu livro é que você pode detestar comida chinesa, até ler o livro e se divertir. Claro que ajuda se você gosta de comida chinesa, mas não é uma condição prévia para a leitura do livro!

Quando escolheu a escola onde ia estudar, pesquisou primeiramente no Google. Antes de ir para a China, deve ter feito o mesmo. Apesar de ser de família chinesa, o que mais a surpreendeu quando viu que havia muitas diferenças entre as informações reais e as virtuais, entre o que a sua família havia ensinado e como era a educação tradicional chinesa?
Foi incrível encontrar a minha escola de culinária na Internet, porque quando eu cheguei, percebi como ela estava desatualizada. Os chefs ainda utilizavam muito óleo. Eles ensinavam por métodos rotineiros, em vez de permitir que os alunos botassem a mão na massa (nós tivemos uma única aula prática, durante todo o período). Mas este é o sistema de educação tradicional chinês – professores autoritários e aprendizagem por hábito e memorização. Fiquei feliz por ter passado por esse processo, porque agora eu entendo o que é ser um estudante na China e eu realmente não desejo isso a ninguém!
Categorias: Entrevistas