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Entrevista: Ian Kelly

16 de Junho de 2009
Os diários de Casanova foram seu principal material de pesquisa para o livro? Que outras fontes foram consultadas?
Apesar de as 3.600 páginas de memórias (não são diários, ele escreveu já em idade avançada, como o testemunho de um idoso) serem a principal fonte para qualquer vida que tenha tido Casanova, eu sempre quis alargar o contexto e encontrar coisas novas, um material que acrescentasse. Os Arquivos Públicos de Praga contam com nove mil itens manuscritos de Casanova: cartas, notas e até receitas e tudo o que foi encontrado em seus aposentos quando ele morreu, perto de Praga, em 1798. Eu achei material relacionado a Casanova até na Rússia, em Paris, em arquivos do Vaticano e boas informações até mesmo nos arquivos da inquisição veneziana ainda no Archivio di Stato di Frari, em Veneza.

Para o senhor qual a principal contribuição dessa biografia: mostrar, por exemplo, que Casanova tinha muitas outras facetas, além da famosa?
Essa é radicalmente uma nova visão de Casanova, assim como uma nova forma de contar a sua história: pretende mostrá-lo, de forma séria, como um contribuinte vital para novas formas de olhar para o homem do século XVIII. E contribui ainda para pelo menos três novas facetas: Casanova como um escritor e um pensador formado pelo teatro veneziano, revelando uma particular forma de olhar para a vida do século XVIII como drama, que acabava sendo também muito moderna; Casanova como um escritor de viagens e comidas - o primeiro grande escritor Ocidental a colocar comida e sensualidade como questões fundamentais. Casanova usando a memória para entender sua vida interior assim como a exterior e colocando o amor e a sexualidade como temas fundamentais para o entendimento de si. É também o primeiro livro sobre Casanova a ser escrito no despertar de uma série de novas pesquisas sobre a vida do século XVIII e das práticas sexuais, que tornam claro que a experiência de vida de Casanova talvez não tenha sido de todo incomum na época, assim como, verdadeiramente, não seria hoje. 

É possível dizer que Casanova tinha uma filosofia de vida que estava inserida nas idéias do século XVIII e todo o seu modo de vida libertário não era algo à frente de seu tempo e sim tinha a ver com as idéias da época?
A filosofia de vida de Casanova nasceu nas idéias libertárias do século XVIII (o que de forma alguma é a mesma coisa que libertinagem), mas ele também foi, eu argumento, à frente do seu tempo como um escritor e um memorialista. Apesar de ele ter tentado publicar em muitos gêneros: filosofia, ficção científica, matemática... assim como escrever livretos de ópera, traduções etc – sua maior contribuição foi sem dúvida A história da minha vida, não publicado até muito tempo depois de sua morte, e provavelmente nunca destinado à publicação. Embora esta seja a clássica história social do século XVIII, por conter tudo o que você gostaria de saber sobre a vida da época e como essa foi vivida por um veneziano que percorreu toda a Europa, o que ele faz, ao formatar suas memórias como uma viagem sensual, é muito à frente de seu tempo. Não são na verdade memórias de um libertino – ele não está interessado em coerção sexual, ele tem uma alta moral sobre si mesmo – mas ele é escravo da novidade, a experiência, e é fascinado pela natureza humana (a dele próprio e a dos outros). Nada como existia em sua época – é um documento revolucionário, assim como Os Direitos do Homem e A Declaração de Independência Americana, todos muito de acordo com as ideias do século XVIII de auto-afirmação do homem – mas também representa os primórdios da moderna maneira de ser.
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