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Entrevista: Howard S. Becker

23 de Outubro de 2009
Numa época em que as disciplinas abriram suas fronteiras e os conhecimentos de diferentes áreas são cada vez mais mesclados, ainda é surpreendente, dentro da área das ciências sociais, usar obras de arte para ler a sociedade e representar alguns de seus fenômenos?
Não, o que me surpreende é muitos dos meus colegas não acharem as artes uma fonte fecunda de ideias e dados. Muitos cientistas sociais pensam que têm o monopólio do pensamento sobre a sociedade ou a investigação dessa. Mas temos tantos exemplos de pessoas nas artes - artes visuais, arte dramática, artes literárias - produzindo um trabalho interessante e importante, que me parece impossível ignorar esse fenômeno. A maioria dos cientistas sociais pensa que as artes são uma forma muito imperfeita de pensar qualquer coisa. Nem todos os cientistas sociais, é claro. Se pudermos considerar, por exemplo, Antonio Candido como um cientista social, como eu ficaria orgulhoso de fazer, então é claro que pelo menos alguns membros dessa disciplina seguiram esse caminho.

O senhor é casado com uma fotógrafa e escritora, é pianista, fotógrafo e frequentador assíduo de eventos ligados à arte. Para o senhor, a sociologia e as artes sempre estiveram interligadas?
Para mim, as artes sempre fizeram parte da minha vida, de todas as formas mencionadas aqui. Quando comecei a escrever sobre as artes sociologicamente, usei minhas próprias experiências, mas eu também me dei algumas novas experiências. Eu fui para a escola de arte e aprendi a fazer fotografias. Eu experimentei com apresentações dramáticas de material sociológico. As artes sempre me deram precioso e detalhado material sobre essa área da vida social. E me ensinou o quão próximo da vida que as pessoas levam deve estar suas observações, para que sejam realmente úteis. É por isso que insisto na observação de primeira mão e em não confiar em estatísticas recolhidas, por exemplo, pelo governo ou pelas agências de pesquisa.

A idéia do livro surgiu depois de um curso ministrado pelo senhor. As aulas enriquecem o seu trabalho como autor? Constantemente, as intervenções de alunos e professores levam a novas questões sobre os temas expostos? 
A ideia de escrever sobre a arte veio antes das minhas próprias experiências. Mas, então, já que eu estava ensinando e queria que minhas aulas me ensinasse alguma coisa, bem como ensinavam aos estudantes, eu incorporei experiências artísticas para os alunos dentro das classes. Tive alunos, por exemplo, fazendo apresentações dramáticas de materiais de ciências sociais. Isso sempre foi muito emocionante para eles e para mim também. E, claro, o que posso aprender com o ensino torna-se parte do que eu escrevo. Eu não gosto de perder nenhuma experiência!

Ao longo dos artigos o senhor trata da obra de grandes escritores e artistas, como, por exemplo, Italo Calvino e Jane Austen. Esses estão entre os seus favoritos?
Perec, Calvino e também Jane Austen e Wallace Shawn e George Bernard Shaw - é uma longa lista de artistas, cujo trabalho tem me ajudado. E a lista inclui não apenas escritores, mas também artistas visuais, como os fotógrafos Walker Evans e Robert Frank, e artistas conceituais, como Hans Haacke e David Antin. E muitos outros. Eu tenho um monte de artistas favoritos! O que eu procuro na arte é, em primeiro lugar, algo que capture totalmente a minha atenção. Então, eu me pergunto como o artista conseguiu fazer isso. Então, eu me pergunto o que aprendi com o que eles me fizeram ficar interessado. Interessantes trabalhos artísticos permanecem interessantes por um longo tempo. Eles geralmente têm tantas idéias e tantas informações que leva muito tempo para você conseguir usar tudo.
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