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Entrevista: Gustavo Franco

17 de Novembro de 2009
A intenção inicial era escrever apenas uma apresentação para o texto de Farnam e o resultado final foi um verdadeiro livro sobre a economia na época e na vida de Shakespeare. Como foi esse processo?
Primeiro veio a necessidade de estabelecer os fatos básicos sobre Shakespeare, que não são conhecidos para o leitor brasileiro, o que, por si só, fazia a apresentação meio grande. Segundo, e mais importante, veio a surpresa com o fato de que muita coisa havia sido produzida sobre temas econômicos em Shakespeare, e sobre sua época, depois de 1931, ano de publicação do livro de Henry Farnam. A simples resenha desse material, em si, já tornava a apresentação um texto comparável em tamanho do livro a ser apresentado, e que o complementava, ou talvez mesmo o transcendesse, em diversos aspectos. Terceiro, ao atender a sugestão da Editora de escrever um ensaio complementar e não um prefácio, ficou mais claro que o meu ensaio se localizava mais claramente ao redor da obra, do homem e da época, ao passo que o texto do Farnam trata da economia no interior da obra. Nesse momento as coisas se encaixaram. 

E como foi a pesquisa para o texto?
Foi perigosa, pois a bibliografia é vastíssima, e a pesquisa tem que ser seletiva. É fácil perder-se em detalhes de pouca importância e em autores menores. Não há nada de evidente em encontrar os melhores críticos e intérpretes. Contei com a inestimável ajuda de shakeperaeanos brasileiros, destacadamente a professora Liana Leão, e num estágio mais avançado do trabalho, com a própria Barbara Heliodora, para as quais era uma absoluta novidade alguém se interessar pelo aspecto econômico em Shakespeare. Os materiais não foram difíceis de ser encontrados no exterior, embora fosse necessária um incursão à Widener, a biblioteca de Harvard, para encontrar alguns textos raros. 

Muito já foi escrito sobre Shakespeare, milhares de livros publicados sobre sua obra. Mesmo assim, esse traz um olhar inovador e descobertas surpreendentes sobre a vida do dramaturgo. O que o senhor destacaria no texto de Farnam e o que destacaria em seu texto?
Farnam fez uma belíssima coletânea de alusões, onde o leitor poderá encontrar praticamente tudo o que há de econômico no interior das peças, as passagens clássicas, as grandes tiradas, os trocadilhos impagáveis e tudo isso. Em respeito à lei das vantagens comparativas, permaneci no exterior da obra compondo o entorno. Do meu texto eu destacaria o capítulo sobre palavras como moedas da troca intelectual, e sobre as “cunhagens” de expressões. Era essa a época em que a efígie dos reis começa a aparecer nas moedas, um fenômeno que um autor popular não poderia deixar de aproveitar de inúmeras maneiras. Destacaria também o que trata da economia das companhias de teatro e seus fantásticos números de público e de receita.

Como o senhor calculou os ganhos do dramaturgo? Naquela época era realmente possível não apenas viver, como também enriquecer só fazendo teatro ou esse era um diferencial de Shakespeare?
A época elisabetana assinala o surgimento do entretenimento de massa, e com o teatro ocupando o papel central, seja quanto ao público, seja no tocante ao dinheiro. Shakespeare, em sua época, foi um de diversos autores consagrados, apenas bem mais tarde ganharia a proeminência que tem hoje; foi um ator mediano quando muito, e foi um empresário do teatro, ou seja, sócio da mais bem sucedida companhia de seu tempo, e também sócio de casas de espetáculos. Foi criticado como argentário, mas o fato é que morreu rico. Existem boas estimativas para seus ganhos, com as quais foi possível montar um bom quadro da economia do teatro elisabetano e da fortuna de William Shakespeare em particular. Em seu testamento, o bardo deixou cerca de 1.500 libras a seus descendentes. Quanto é isso, em dinheiro de hoje? Essa é uma pergunta de economista: dependendo do método de cálculo, o valor pode chegar a 14 milhões de libras de 2009. Por aí talvez já se possa sugerir que as considerações econômicas tiveram importância considerável na vida desse senhor.
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