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Entrevista: Francine Prose

07 de Maio de 2010

O Diário de Anne Frank ainda causa comoção e atrai muitos leitores ao redor do mundo. Sua idéia inicial não era escrever um livro tão completo sobre Anne Frank, certo? A senhora acredita que, como tantos leitores, também se envolveu e se comoveu com a história?? 

Uma das razões que me fez escrever esse livro foi que eu queria tratar o diário como uma obra de literatura. Em todos os comentários que o diário gerou, pouco foi dito sobre a voz literária de Frank. Pensei o diário não como um documento histórico sobre o Holocausto, mas como uma obra de arte, um livro de memórias com as virtudes de um grande romance: a trama, o arco dramático, suspense e vívidos personagens memoráveis. O que me propus a fazer foi mostrar como o livro é trabalhado conscientemente como literatura, em vez da expressão espontânea de uma adolescente, mas eu também incluí essa analise dentro do contexto das muitas facetas do fenômeno Anne Frank, incluindo as muitas formas em que foi distorcido. 

A senhora acredita que esse estudo poderá esclarecer muitos mistérios que cercam o diário e acabar com qualquer dúvida em relação à sua autenticidade?

O livro discute em profundidade os desafios para provar a autenticidade do diário (por exemplo, alguns citaram o uso de tinta de caneta esferográfica, o que não estava em uso antes de 1944. Apenas seis páginas do diário inteiro são numeradas com uma bola de tinta, aparentemente feitas pela mão de seu pai). Profundas investigações foram realizadas para analisar os muitos ataques, o que produziu mais de 250 páginas de resultados comprovando a autenticidade do diário, com peritos estudando os materiais, mas também a impressão do bloco que ela usava nas primeiras páginas e analisando as entradas feitas mais tarde e as revisões, verificando se elas tinham sido feitas pela mesma garota, cuja letra sofreu modificações durante os dois anos em que o diário foi escrito. Além disso, há alguns que querem dizer que uma adolescente não poderia ter escrito um livro como este, e uma das coisas que eu digo no livro é, ok, este não é um grupo demográfico que nós normalmente associamos a gênios literários, mas de fato aconteceu. Uma menina adolescente genial realmente escreveu esse livro. De certa forma, uma das razões que me fez escrever o livro foi que eu senti que estava fazendo algo por adolescentes em todos os lugares do mundo, ao dizer que é possível. Pois eles são uma parte desvalorizada de nossa população, subestimada, e aqui está uma adolescente que escreveu um livro. Algumas décadas a partir de agora, todos os que viveram esse tempo específico não estarão mais vivos, mas os nomes que vamos nos lembrar são os dessas oito pessoas que viveram nesse sótão. E quando eu me dou conta de que é, na verdade, por causa de uma adolescente que nós vamos conhecer o nome dessas oito pessoas, me surpreendo mais uma vez.

Com o diário podemos saber sobre os sentimentos de Anne, idéias e os seus planos para o futuro. Ela realmente queria que o seu diário fosse visto como uma obra de arte?

Todo mundo que leu o diário sabe que há passagens em que Frank expressou sua esperança de se tornar uma escritora. Mas poucos sabem que ela queria que seu texto fosse publicado como um romance em forma de diário. E, menos pessoas ainda, o que foi para mim a coisa mais surpreendente que eu aprendi no curso da investigação: que durante os seus últimos meses no sótão, Frank voltou para o início do diário e, com mais de 300 folhas de papel avulso colorido, reescreveu as entradas anteriores, esclarecendo, preenchendo lacunas, adicionando e excluindo seções inteiras, fazendo importantes mudanças na forma como ela descreveu seu desenvolvimento espiritual e sua vida diária. Ela fez isso depois que ouviu um ministro da cultura holandês em exílio dizer no rádio que, após a guerra, haveria interesse nas histórias sobre o que os holandeses comuns tinham sofrido, eles queriam escritos. Isto estimulou Frank a querer o seu diário numa forma publicável.

Há muitos livros sobre o Holocausto. Mas os números que acompanham a publicação do diário são impressionantes. Na sua opinião, qual é o fator decisivo para o grande sucesso do Diário de Anne Frank?

Entre as muitas razões pelas quais o diário continua amado há o fato de que ele tem muito a ensinar aos seus leitores: como ver a si mesmo e ao mundo, como navegar na dolorosa transição entre a infância e a idade adulta, como permanecer amando, digno e decente, no meio da mais bárbara crueldade e horror.

Como professora, como foi para a senhora analisar as muitas maneiras que o livro foi tratado em sala de aula, e comprovar que, em muitos casos, o diário tinha sofrido censura nas escolas?

Toda vez que eu falei para os alunos ou trouxe o diário para os alunos, ouvi o que eles tinham a dizer. Eu tenho me comovido bastante em ver o quanto esse livro ainda afeta a todos eles, todos esses anos depois.
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