Zahar

Blog da editora

Entrevista exclusiva: Zygmunt Bauman.

01 de Agosto de 2012
José Saramago foi uma inspiração para o livro?
Sim, de fato, o longo esforço de Saramgo em manter por um ano um blog que comentasse regularmente os acontecimentos rotineiros, registrando suas próprias reflexões sobre os significados e a mensagem que eles continham, foi um esqueleto para pensar e uma forma de escrever que eu achei particularmente interessante para manter o rastro de nossas realidades permanentemente em mudança. O resultado, de qualquer forma, é um “livro de anotações” mais do que um “livro”: ele segue a trilha dos eventos, não um tema concebido previamente ou um desenho feito pelo autor. Assim, como em um diário, as entradas, por assim dizer, foram selecionadas conforme foram surgindo e não pela iniciativa do autor – mesmo porque a atenção e o interesse dos autores pinçam algumas notícias do fluxo, mas deixam outras passar sem registro.

Quando o senhor começou a comentar as notícias dos jornais sua intenção foi estimular que o leitor desenvolvesse uma visão crítica em relação aos acontecimentos?
Você pode dizer que essa foi a intenção... Muita coisa acontece no mundo - e a atenção do público guiada pela imprensa diária e as notícias da TV é muito desleal - para que o significado dos eventos seja mastigado e digerido de forma apropriada, seja deixado quieto pelo tempo necessário para ser compreendido, retido na memória e absorvido de forma ativa. A forma de “caderno de notas” tem mais a ver com a pausa e a reflexão do que os veículos jornalísticos, guiados na correria pela necessidade de capturar os acontecimentos em pleno voo.

O senhor continua escrevendo uma espécie de diário atualmente?
Continuo, embora talvez, sob a pressão das circunstâncias, menos regularmente do que há um ano atrás... Eu acho isso muito útil para armazenar em tópicos que talvez precisem de um tratamento mais elaborado no futuro, para anotar as continuidades e descontinuidades na reconhecidamente volátil condição humana. Manter um caderno de anotações significa atualizar a “base de dados”, para reavaliar e organizar a visão de mundo. Algumas das entradas são, porém, reprocessadas e usadas em escritos mais focados, bem antes de o caderno de notas atingir um tamanho que justifique sua publicação em separado na forma de livro...

O senhor acredita que, nesse livro, os leitores vão saber a razão de sua escrita volumosa? Escrever para o senhor é a melhor maneira de pensar sobre alguma coisa?
Ao menos eles vão encontrar um conhecimento sobre como a mente de um escritor funciona e como o registro dessas voltas e reviravoltas pode se transformar em um impulso irresistível... Ou, pelo menos, é o que eu espero.
Categorias: Entrevistas