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Entrevista exclusiva: Rinaldo Voltolini

15 de Agosto de 2011
Freud buscava acabar com um ideal de educação. Segundo este pensamento, não existiria um padrão de educação e o ideal seria seguir as possibilidades de cada indivíduo?
Não é propriamente acabar com um ideal da educação, mas acabar com uma idealização da educação, a busca da educação perfeita. Essa distinção é necessária porque Freud vai sustentar que é inevitável que uma educação se assente sobre um ideal. Outra coisa é pensar de maneira idealizada num determinado tipo de educação como se ela pudesse portar todas as virtudes necessárias para que consigamos fazer de nossas crianças aquilo que esperamos delas. Toda época tenta traçar um padrão para a educação e esse padrão segue a risca os ideais que a sociedade em questão sustenta. Em nossa sociedade atual, por exemplo, o ideal é justamente, como você sugere em sua pergunta, o de seguir as possibilidades de cada indivíduo. Tal ideal, fundado numa concepção liberal do mundo, reforçadora da noção de indivíduo e de liberdade, se por um lado busca favorecer aquilo que se considera ser as potencialidades individuais, por outro enfraquece, inevitavelmente, tudo aquilo que diz respeito ao coletivo, ao comunitário. É esse movimento equivalente ao provérbio popular "do vestir um santo e desvestir outro", que Freud nomeia como o impossível de toda educação. Nossa tendência é de na geração futura tentar abarcar o que na educação da atual ficou de fora. Nesse sentido, de tempos em tempos assiste-se na educação o retorno de antigos valores que se acreditavam superados.

A intenção, ao abordar o tema através da psicanálise, é discutir a forma como a educação atua na parte psicológica de cada um?
A intenção de abordar a educação através da psicanálise é a de mostrar que toda e qualquer intenção de controle na direção de um objetivo planejado previamente pelos adultos para as crianças fracassará inevitavelmente, mas sem que a gente precise considerar esse fracasso como algo necessariamente ruim. O fracasso de que se trata aqui é o da impossibilidade de se conduzir um outro sujeito conforme regras prescritas pela vontade de alguém. Como tal, esse fracasso é o índice, a medida da liberdade humana. É ele que demonstra que ninguém pode ter sobre o outro um poder absoluto. Nos dias de hoje é comum apostarmos na ideia de que o conhecimento psicológico das crianças nos dará os instrumentos para uma boa educação. A psicanálise é aquela que vai demonstrar justamente o contrário, muito embora ela seja tomada pela pedagogia muitas vezes nesse lugar de quem poderia instruir o professor a trabalhar com seus alunos mostrando como funciona psicologicamente a criança. Mas é justamente no avesso desse lugar que a reflexão da psicanálise pode se instalar no interior da educação.

Na sua opinião, todos os que trabalham com educação deveriam levar em consideração os estudos de Freud e Lacan relacionados ao tema?
Sim, desde que não esperem desses estudos um efeito de instrumentalização do trabalho do professor. A contribuição da psicanálise à educação não é de ordem técnica, mas ética. Ela ajuda a compreender as raízes do processo educativo, as condições de possibilidade de sua realização. Um professor pode esperar de seus estudos de psicanálise uma "transformação" de sua visão sobre a educação, mas nunca regras das quais possa se valer para lidar com seu aluno
Categorias: Entrevistas

Comentários

Marcos José de Souza

Que tranquilidade transmite essas pequenas explanações. Quanto ao novo, temos a "necessidade" da educação integal criada por alguns sem a devida observação às possibilidades tanto físicas, quanto profissionais.

03 de Maio de 2015

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