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Entrevista: Dyan deNapoli

22 de Julho de 2011

Quando você começou a trabalhar com pingüins?
Comecei a trabalhar com pinguins em 1995, enquanto estudava para me tornar uma enfermeira veterinária. Durante este treinamento, fiz um estágio no New England Aquarium de Boston (NEAq), onde trabalhei com pinguins todos os dias por quatro meses. Também sempre tive paixão pelos golfinhos, mas rapidamente descobri que os pinguins são animais muito atraentes e interessantes para se trabalhar também. Então, depois da graduação, me candidatei a uma posição como tratadora de pinguins no NEAq. Trabalhei lá até o fim de 2004, quando comecei minha empresa educacional, The Penguin Lady, que ensina adultos e crianças de todo o mundo sobre pinguins. Minha missão inicial é sensibilizar e captar financiamento para a proteção dos pinguins – com esse fim, doei 20% dos rendimentos do meu livro e de toda a aparição em público para organizações de resgate e conservação de pinguins. 

Em seu livro, você narra uma história excitante sobre como as pessoas podem ajudar a reverter um grande estrago causado pelo homem. Você já viveu outra situação como esta?
No ano passado, durante o horrível vazamento de óleo no Golfo do México, eu fui contratada para ir a Louisiana por um mês para ajudar, lavar e reabilitar os pássaros com óleo, mas dias antes de viajar saíram notícias sobre os efeitos tóxicos do Corexit (o dispersante químico usado para quebrar e afundar o óleo). Além de devastadores problemas de saúde, pode causar insuficiência renal – e por ter nascido com apenas um rim, fui aconselhada a não viajar ao Golfo. Não ter ido ajudar nos esforços de resgate foi uma decisão que tomei com muita agonia, mas foi necessária, já que os riscos à minha saúde eram tão grandes.
E apenas alguns meses atrás, em 16 de março de 2011, um navio chamado MS Oliva naufragou na Ilha Nightingale no arquipélago Tristão da Cunha, encharcando de óleo aproximadamente 20 mil pinguins. Eu quis desesperadamente ir ajudar, assim como fizeram muitos outros especialistas em pinguins, mas a localização extremamente remota do arquipélago, no meio do Atlântico Sul, não possibilitou uma resposta em grande escala. Não há nem mesmo uma pista de pouso para aviões e o mais próximo é sair de navio de Cape Town, uma viagem de uma semana e 1.800 milhas. Apesar de um pequeno time de especialistas ter navegado até Tristão da Cunha para treinar 265 moradores da ilha a como tratar pinguins encharcados com óleo, milhares de aves morreram, porque simplesmente não havia recursos necessários e mão de obra para salvá-las. Esse trágico incidente serve de exemplo da necessidade do estabelecimento de centros de resgate e pessoal treinado em regiões onde rotas de navegação estão próximas ao habitat de pinguins. 

O incidente tratado no livro quase exterminou 41% da população de pinguins africanos. Como está esta população de pinguins nos dias de hoje?
Apesar da operação de resgate em 2000 ter sido muito bem sucedida, os pinguins africanos correm o risco de serem extintos da natureza em menos de dez anos. Isso não ocorre devido ao impacto do vazamento de óleo – os pinguins reabilitados sobrevivem tanto quanto os que não passaram pelo incidente. Pelo contrário, ocorre devido a outras perturbações humanas, como a pesca predatória e o aquecimento global. Como resultado desse problema, milhares de pinguins africanos estão aparentemente famintos, devido ao deslocamento de suas principais presas (anchovas e sardinhas). Na época do vazamento de óleo do Treasure essas aves foram classificadas como uma espécie ameaçada, com uma população de aproximadamente 170 mil indivíduos. Exatamente um ano atrás, em abril de 2010, o status de conservação mudou para em perigo. A população nesta época era de metade do que havia sido dez anos antes. Há vários esforços de conservação em andamento, como o resgate de filhotes de pinguins abandonados ao fim de cada temporada de reprodução, e o estabelecimento de zonas onde é proibido pescar. Esses projetos provaram ser bem-sucedidos e, esperançosamente, essas e outras estratégias vão ajudar a diminuir a redução da população.


Casos como o relatado no livro são uma situação isolada? Você acredita que histórias como essa ajudam a mudar a mentalidade em relação aos problemas ecológicos?
Eu gostaria de poder dizer que foi uma situação isolada, mas os pinguins africanos tem sido atingidos por óleo há décadas, devido à proximidade das rotas de navegação com sua área de reprodução. Apesar de não ter havido um grande vazamento de óleo próximo a Cape Town desde este de 2000, a ameaça está sempre presente. Esperançosamente, incidentes como esse aumentam a conscientização por parte das indústrias e do público em geral. Não podemos perder as esperanças. Cada um de nós pode fazer escolhas que ajudem os pinguins e outros animais, assim como reduzir nossa dependência aos combustíveis fósseis, a reciclagem, apoiando os esforços de resgate e conservação e sendo mais responsáveis em relação à Terra de uma forma geral. 

Você escreveu uma história muito esperançosa. Acredita que qualquer um pode ajudar a reverter uma situação como essa? Todo mundo pode salvar um pingüim?
Estou feliz que tenha achado essa uma história de esperança. Os resultados alcançados nos esforços de resgate de 2000 são um testemunho do que pode ser alcançado quando as pessoas se unem em torno de uma causa comum. Quando entramos no centro de resgate de Cape Town, cheio com 19 mil pinguins cobertos de óleo, não poderíamos imaginar como seria humanamente possível salvar tantos milhares de aves. O que transpareceu ao longo dessas longas semanas foi extraordinário e sem precedentes. E nada disso poderia ter acontecido sem a ajuda de milhares de dedicados voluntários. Qualquer um pode salvar um pinguim? Absolutamente! Os 12.500 voluntários que compareceram ao centro de resgate para nos ajudar a tratar das aves não tinham nenhuma experiência de atuação em crises com animais ou em trabalhar diretamente com pinguins. O trabalho foi extenuante, imundo, estressante, cansativo e doloroso - tanto física quanto emocionalmente. Mas, apesar das condições, os voluntários aguentaram até o fim para salvar os pinguins. Para muitos de nós que trabalham nesses esforços de resgate, a incrível resposta dos voluntários restaurou nossa fé na humanidade.
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