Zahar

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Entrevista com a autora

07 de Novembro de 2007
Por que você esperou tanto tempo para escrever o livro?
 Quando Jimi Hendrix morreu em Londres, em 18 de setembro de 1970, o choque e a tristeza não me deixaram por muito tempo e o mesmo aconteceu com os amigos mais próximos dele. Nós éramos inocentes e, para muitos de nós, essa foi a primeira morte próxima que presenciamos. Eu estava trabalhando como repórter iniciante no escritório de Los Angeles da United Press International (UPI). Este era um emprego que exigia muito de mim, uma oportunidade importante, e eu não tinha a intenção de deixar para me concentrar em escrever sobre uma vida sofrida como a de Hendrix apenas para ganhar dinheiro. Eu me convenci também que, em breve, algum escritor brilhante escreveria sobre ele. Eu conhecia e continuo conhecendo muita gente famosa. Mas não era o tipo de pessoa que queria ficar obcecada por um astro ou ser apresentada como: “Sharon Lawrence que conhece fulano e fulano...”

Ao longo dos anos, cresceu o interesse de editoras do mundo todo sobre a vida de Hendrix, assim como o de diretores de cinema e de produtores de televisão. Eu escolhi viver minha própria vida e me dedicar a interesses variados. Quando eu deixei a UPI para trabalhar na divulgação de filmes e músicas, presenciei outras tragédias. Tive uma outra idéia sobre a razão de coisas ruins acontecerem a boas pessoas. Eu sabia que só deveria escrever sobre este período quando estivesse realmente pronta para olhar para trás.

Todo ano, desde a morte de Hendrix, eu recebia de 500 a mil cartas, telefonemas e mensagens de fãs que eu não conhecia, mas que escutaram ou leram em algum lugar que eu era amiga de Jimi. Pessoas cuja idade variava de 8 a 70 anos. Elas queriam saber como ele realmente era, o que realmente tinha acontecido. Queriam se aproximar de seu ídolo, mesmo anos depois de sua morte. Jimi Hendrix nunca foi tão popular ou reverenciado quanto nos dias de hoje.

Ele é considerado imortal, uma lenda. O seu nome vende milhões de discos pelo mundo todo. Conforme o mundo entrou num novo século e eu ganhei mais experiência, comecei a entender que contar a estória de Jimi era uma forma de escrever um documento histórico. Eu senti que um livro teria que ser escrito com as palavras de Jimi, com a sua forte presença e que deveria ser um relato equilibrado e honesto. Ele se abria para mim nos seus últimos três anos de vida, me confidenciando sobre sua rotina e confiando em mim – porque ele precisava disso. Foi preciso um mergulho profundo e longas horas de dedicação por dia para fazer justiça a tudo isso. E foi preciso também coragem para visitar o passado. O livro é escrito de uma forma que possibilita aos leitores sentir como se a estória estivesse acontecendo enquanto eles lêem. Eles vão perceber mais uma vez que Jimi Hendrix era especial. Como o seu último produtor, Bill Graham, disse: “Jimi foi o primeiro e, de repente, o último a ser amado tão profundamente e de forma tão pura”.

Você fez muitas entrevistas com ele na época ou as conversas que aparecem transcritas no livro foram tiradas da sua memória?
 Meu trabalho era escrever basicamente sobre filmes. Eu conhecia música e amava música e essa era uma importante conexão com Jimi e outros amigos que fiz no período. Jimi logo se abriu comigo e falava de uma forma tão interessante e vívida que suas palavras são sempre prazerosas de serem relembradas. Jimi gostava de gravadores e ficava admirado que eu tivesse um e usasse nas entrevistas que fazia com estrelas do cinema. Mas era comum eu anotar observações que ele fazia para que pudesse lembrar depois, enquanto dirigia para casa.
Meu próximo livro, um panorama da cultura Pop de 1965 aos dias de hoje, escrito por alguém que presenciou os acontecimentos, vai refletir as lembranças e recordações que tenho de muitas pessoas talentosas. Vou usar dezenas de fitas cassetes e os meus diários, nos quais escrevia de forma fiel algumas linhas todas as noites. Mesmo assim, é difícil de esquecer a maior parte do que Jimi me disse e olha que ele falava muito. Ele simplesmente era mais interessante do que a maioria das pessoas e eu tenho a sorte de ter herdado uma boa memória de meus pais. Todos os meus amigos jornalistas me ligam para checar fatos e as coisas mais variadas.
Eu cheguei a fazer uma entrevista com Jimi, mas meus chefes na UPI, que achavam música uma perda de tempo, decidiram que queriam uma estória sobre ele, em vez da entrevista. Mas havia tanta interrupção e confusão quando eu tentei conversar com Hendrix profissionalmente, que realmente a tentativa se revelou uma perda de tempo. E nesta época eu sabia tanto sobre ele que seria difícil escrever num formato de notícia.

No Brasil a área de música costuma ser dominada pelos homens. Você sentiu algum tipo de preconceito por ser uma mulher escrevendo sobre uma estrela do rock?
 Isso é verdade. Os homens ainda dominam, apesar de, aos poucos, esta situação estar mudando nos Estados Unidos. Como eu escrevi a maior parte do tempo sobre cinema, isso não era um problema para mim. Além disso, o preconceito, ou melhor, ciúme, era mais por eu ser uma mulher jovem com grandes estrelas do rock como amigos. Los Angeles era uma cidade relativamente pequena e todas as estrelas inglesas se sentiam empolgadas em estar lá. Eu conheci todo o tipo de músicos, em clubes, festas pequenas etc. Os jornalistas homens ficavam incomodados por ser eu e não eles a estar sentada com os rapazes.

Quando você escreveu a biografia estava preocupada em mostrar que Jimi Hendrix era muito diferente da imagem divulgada pela mídia, não? Um homem doce, sensível, tímido…
 Sim, esta era a minha preocupação, principalmente depois que a internet passou a apresentar tantas histórias sobre a vida de Hendrix, escritas por pessoas que, provavelmente, nem estavam nascidas na época em que ele viveu. Seus amigos sempre o viram como tímido, sensível, doce, assim como descrevi no livro. As pessoas que pensam nele como o homem selvagem, que queimava guitarras, nunca viram o verdadeiro Jimi. Esta imagem selvagem é muito ligada ao marketing, criada para vender, não está relacionada a um ser humano com sentimentos. Muitos fãs me escreveram dizendo que isto foi o que eles mais gostaram do livro: o fato de traçar o tipo de pessoa que ele era. Ele me falou muita coisa sobre a realidade de seu dia-a-dia. Mas falou pouco com a maioria das pessoas sobre isso, porque se sentia embaraçado, humilhado e envergonhado por ter passado por tantas dificuldades logo no início da vida. Eu fiquei surpresa em ver que tantos músicos ingleses que o conheciam tão bem sabiam tão pouco sobre sua trajetória de vida. Hendrix me disse que tinha aprendido a nunca contar com nada ou ninguém.
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