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Entrevista: Antonio Godino Cabas

17 de Fevereiro de 2009
Desde quando o senhor vem desenvolvendo as questões relativas ao sujeito presentes em O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan? Como foi o processo da pesquisa?
Essas questões – que não apenas estão presentes como representam o fundamento desse livro - não são recentes. Decorrem de uma série de preocupações clínicas muito precisas que tem uma história e vem tomando corpo com o tempo, a ponto de ser difícil situar um início, porque é praticamente impossível apontar um momento único.
Seja como for, o fato é que no fim da década de 80, uma tendência farmacológica que vinha se esboçando no horizonte tomou força e veio mudar a clínica. O advento dos neurocondutores fez com que a clínica psiquiátrica, que se inspirava nos ensinamentos da assim chamada psiquiatria dinâmica, mudasse sua orientação e se assumisse como neuroclínica. Foi assim que surgiu uma prática que se escora, no plano teórico, na teoria da comunicação: os condutores. E, no plano prático, na existência de medicações cuja eficácia é tida como certeira. Isso mudou tanto o diagnóstico quanto a clínica propriamente dita. Ambos passaram a centrar nos transtornos correspondentes. Para esta ‘nova clínica’ o distúrbio da comunicação exigia um tratamento dos condutores e não mais das condições vitais do paciente. Nesse contexto, a dor de existir passou a ser tratada pelo viés da recaptação da serotonina e a dor de ser passou a ser concebida como um distúrbio de bipolaridade, enquanto que o restante das questões subjetivas foi entregue aos cuidados das cirurgias plásticas, incumbidas de reconstituir os semblantes. No fim, a pergunta pelo ser tornou-se uma preocupação com as figuras da aparência. Foi o surgimento de uma prática destinada a restituir (ou reconstruir) o ideal. Simplesmente, é uma clínica que concebe que a realização humana se reduz a um bem passar no plano dos semblantes.
O fato é que, por essa mesma época, fim da década de 80, após a morte de Lacan, houve um importante ordenamento no campo analítico. Um grande número de seus seguidores diretos, assim como a grande maioria de seus leitores, viram-se na necessidade de fixar suas posições frente ao legado teórico e clínico do seu ensino. Um balanço difícil e com conseqüências. Citarei duas delas:

• A primeira (a mais importante) é que, a psicanálise, um saber que nasceu com o século XX justamente para dar resposta aos problemas éticos que representavam o fim da modernidade e o advento da, assim chamada, contemporaneidade, não pôde se fazer presente para dar sua resposta nesse debate que suprimia a questão subjetiva.

• A segunda é que ao retomar o debate público, os analistas passaram a tomar como ponto de apoio as elaborações mais atuais da filosofia política e da sociologia, perdendo, com isso, sua referência freudiana. O sujeito passou a ser identificado com o sujeito-da-filosofia contemporânea e as questões subjetivas ficaram reduzidas a meras questões da ‘subjetividade’. De tal modo que, quando retomaram o debate para assinalar a importância do sujeito, os analíticos haviam perdido a referência clínica. No fim, o sujeito freudiano ficou ofuscado pelo problema do ‘direito à cidadania’ na contemporaneidade. 

Qual foi a motivação para enveredar por esse caminho? Foi ao se deparar com observações de que hoje estamos diante de um novo sujeito, com novos sintomas, resultado de novas demandas de um novo milênio? Ou foi pelo caminho inverso, recorrendo a escritos de Freud e Lacan?

Pelo que foi dito, foi a clínica. Mesmo porque é ela, a clínica, que põe em evidência a disjuntiva acima descrita. Me explico: o que o paciente demanda é o alívio. O alívio para um sofrimento que, no fim, tornou-se insuportável. Acontece que esta demanda é dúbia. Pode, com efeito, significar uma demanda de alívio a qualquer preço, como pode significar uma demanda de solução do conflito. Ora, o analítico sabe que o procedimento normal para se obter alívio imediato é a supressão de qualquer um dos termos do conflito. E, para isso, basta consolidar os recursos do recalque ou da repressão (isto é, do nada querer saber disso) para manter ou recuperar o equilíbrio. Entretanto, o analítico também sabe que o sofrimento que está na origem da demanda de alívio não é, apenas, um desarranjo passageiro ou um transtorno circunstancial e nem um distúrbio momentâneo. É a mais pura expressão de um conjunto de inclinações que derivam de outras tantas tendências que fazem parte da própria vida e que, portanto, são definitivamente não elimináveis. É o que Lacan denomina de a questão do sujeito. É o que a clínica deveria visar acima de qualquer outro objetivo. Já que, o que se trata na clínica, é de extrair a dita questão para, no fim, pôr o sujeito em questão. 

De tal maneira que, posto diante da demanda de alívio, ao analítico cabe uma decisão. A de aceitar a demanda para atendê-la, ou a de aceitá-la para deixá-la em suspense por um certo período de tempo. O justo necessário para pôr de manifesto a questão que subjaz. 

Como pode se ver, a clínica (quero dizer: a clínica propriamente dita) implica na assunção de uma escolha: A de satisfazer a demanda de alívio e, para isso, bastaria ao praticante reforçar os recursos do ideal (cuja eficácia pode ser relativa mas é tão garantida quanto o recurso à fluoxetina, à paroxetina ou uma eventual cirurgia remodeladora). Ou a de suspender a demanda para dar lugar à possibilidade de o paciente encontrar-se com os fundamentos do seu sofrimento. Uma proposta que amiúde tem sido criticada como representando um elogio do ‘sofrimento’, mas que, no fundo, é a única alternativa efetiva, haja visto que o sofrimento nada mais é do que o doloroso efeito que se depreende de uma espera. Isto é, da manutenção de uma pendência. 

Em suma, é uma disjuntiva que embutida na própria demanda de cura se resume, para o clínico, à escolha de uma alternativa: ou a terapêutica, ou a analítica. E aqui, é mais do que evidente que os escritos de Freud e de Lacan tem um papel decisivo, desde que é neles que encontramos a definição formal, conceitual, epistêmica e clínica do que é uma analítica. 

O senhor acredita que essa é uma questão que está presente hoje nos consultórios de psicanálise? Que os psicanalistas estão se questionando sobre a existência de novos sintomas?
Certamente. Até por que um debate desse tipo se faz presente no dia-a-dia e afeta a prática analítica. Só que, dito assim, uma pergunta se impõe: Tendo em vista o sigilo que envolve a intimidade dos consultórios analíticos, como pode essa questão ter vindo a público? A resposta é imediata: pela mão dos psicanalistas. E como pode isso ter acontecido?
Simplesmente, pela necessidade que têm os psicanalistas de tratar esses assuntos nas respectivas escolas –onde se discute a formação analítica- e no espaço público das mesas redondas e nos debates universitários, onde se discute a relação da psicanálise com os outros saberes e, por extensão, a transmissibilidade dos conceitos freudianos. E o certo é que, ao que tudo indica, os analistas entraram no debate apoiando-se na experiência clínica. Mas como dialogar significa fazer-se entender e para isso, às vezes, é necessário traduzir-se, parece que, pelo rumo da discussão, o sujeito freudiano foi se equiparando à referência filosófica vigente. Uma referência, por definição, isenta de qualquer exigência clínica. E aí, com o correr do tempo, os termos da equação parecem ter se invertido. Em vez de ser a clínica a referência das intervenções dos analistas, foram as idéias vigentes no debate em curso que passaram a orientar as concepções dos analíticos. 
É verdade que um tal deslocamento só pode ter ocorrido sobre um pano de fundo muito nítido, mais do que isso, denso. O último quarto do século XX ficou marcado por uma série de eventos que representaram uma reviravolta. A queda do muro de Berlim, o fim do socialismo real e a correlativa expansão da economia em uma escala global sem precedentes deram a impressão de estarmos vivendo o fim de uma época. E aí, sob o mote do ‘fim das ideologias’, surgiu a necessidade de uma nova ideologia. 
Tanto e a tal ponto que, na busca de uma nova Weltanschaaung, tanto as mesas redondas como os debates universitários mergulharam de cheio na tarefa de compreender o que parecia ser uma nova realidade: as novas questões do novo milênio. A partir daí, a função do sujeito (o sujeito do inconsciente) acabou equiparada à questão da cidadania e ao problema da subjetividade em um mundo onde a palavra “globalização” parecia ser o novo nome de uma realidade há muito conhecida da psicanálise: a psicologia das Massas (essa peculiar subjetividade das multidões).
Porque o fato é que, a dita ‘contemporaneidade’, não é um fato novo surgido no fim do milênio. Ela aparece como um traço marcante já no advento do século XX, quando teve lugar o sepultamento da modernidade e se pôs na mesa uma pergunta, tão radical como absoluta, que a psicanálise encarna. É a pergunta pelo sujeito, sua responsabilidade, sua ética.

No mais, uma afirmação como esta pressupõe uma peculiar elaboração epistemológica que, talvez, exceda o marco de uma entrevista. Ainda assim, como não dar um exemplo capaz de ilustrá-la? E aí, (creio que é Karel Kosik que o observa) basta evocar o fato que o próprio século XX terminou da forma que começara. Em suma, o próprio século XX se apresenta, desde o início, como um século tão idêntico a si mesmo que serve de exemplo do que é o real de uma contemporaneidade que se revelava, desde o inicio, pós-moderna. 

Há tempos o senhor se instalou no Paraná. De certa forma, essa escolha de deixar o eixo Rio-São Paulo reflete uma busca em seguir seus próprios caminhos, sem se deixar influenciar por correntes da psicanálise das duas grandes cidades?
Me permita uma retificação. Minha instalação no Paraná, em Curitiba, data de 1976, ano em que cheguei ao Brasil. Portanto, não é uma decisão tardia, mas um fato primeiro. Ocorre que, a partir de 1977 e por muitos anos, mantive um ritmo de viagens periódicas e regulares ao Rio de Janeiro e São Paulo (e, de forma mais esporádica, a outras cidades) para onde me deslocava com o propósito de dar cursos, conferências e seminários. 
Na época, duas razões me animavam. Em primeiro lugar, o desejo de transmitir e divulgar o saber analítico, algo que só se tornara possível graças à disposição dos meus interlocutores, cujo interesse pela matéria era muito grande. Em segundo lugar, a necessidade de encontrar correspondentes e devo dizer, sem sombra de dúvidas, que os tive à altura. De resto, também devo dizer que na época eu era muito jovem e a minha impaciência era grande. Não me era fácil esperar até a consolidação de um ambiente de estudo e reflexão na terra que eu escolhera. 

Mas eis que, na década de 90, me sobreveio uma dúvida quanto ao sentido da mesma. Como manter a confiança numa transmissão –cujo maior fruto era a difusão dos conceitos- quando eu próprio considerava que a mesma não era senão a parte mais superficial da formação de um analista? Em suma, como sustentar um ensino que faz apelo à razão, quando considerava que a formação do analista não depende da ampliação do horizonte intelectual e sim da efetiva elaboração da questão que, para cada um, representa seu si mesmo?
Face a tais dúvidas, só tinha uma saída: a de assumir, simultaneamente com os cursos, a responsabilidade de acolher demandas de análise com fins didáticos. Uma solução contrária as minhas convicções, um sintoma, talvez um arranjo. Por sinal, pouco aceitável. 
Em principio, por ter a suspeita de que a demanda de saber dirigida a um professor representa um sério obstáculo ao saber que se deve visar no trabalho da análise. Portanto, um avatar que não favorece a instalação do trabalho analítico. A seguir, por ter certeza de que a demanda de análise exige do futuro analisante um preço. O de assumir o endereçamento de sua transferência, de medir a distância que separa sua demanda e a presença do Outro, de mensurar a fenda que separa a demanda de saber do sujeito-suposto-saber que a subtende. Algo que, na dita solução, aparece em forma invertida, ao recair não mais no futuro analisante, mas no pretenso analista, a iniciativa de deslocar-se. E finalmente, por levar em conta algo que representa um obstáculo à direção da cura. Amiúde, a prática do ensino margeia o empuxo a convencer. Um impulso contrário ao discurso analítico já que a paixão por convencer é, junto com a ambição de curar, um dos maiores obstáculos ao ‘desejo do analista’. 
Diante dessas considerações, só restou dar por encerrada uma etapa que, sendo rica do ponto de vista da transmissão, era insuficiente do ponto de vista da formação. E aí, você tem razão quando diz que “a escolha de deixar o eixo Rio-São Paulo reflete uma busca em seguir meus próprios caminhos”. 

Em contrapartida, não parece plausível dizer que o objetivo teria sido de “não me deixar influenciar por correntes da psicanálise das duas grandes cidades”. A prova é que após interromper a rotina dessa transmissão coube-me assumir novas funções no seio de uma associação na qual já vinha assumindo posições por mais de uma década. Aliás, uma associação que englobava não apenas o trabalho que se desenvolvia no próprio eixo Rio-São Paulo, como também em outras regiões. E quando o momento de concluir veio encerrar esse compromisso, lá pela virada do milênio, minha escolha não enveredou pela solidão das sendas que sulcam o planalto curitibano, mas voltou-se para a retomada de uma experiência societária, mais precisamente uma escola, onde o problema da formação continua, sendo o eixo que orienta os trabalhos do conjunto.

Sublinho esses detalhes com o objetivo de dizer que, a idéia de que a solidão possa ser uma garantia de pureza, me é radicalmente alheia. Pois, como poderia o analista ter como máxima o exemplo do eremita ou a deriva do lobo da estepe, quando seu afazer cotidiano o inscreve em um laço social e o põe em permanente contato com o ‘desejo do Outro’? Por lógica conseqüência, como conceber o analista a não ser no marco e no contexto de uma Escola?
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