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Entrevista: Andréa M. C. Guerra

27 de Agosto de 2010
Seu livro percorre tudo o que a psicanálise já estudou sobre a psicose, desde os primeiros estudos de Freud até as descobertas de Lacan. Lacan foi o principal nome nessa área de estudo da psicanálise?
O nome do psiquiatra e psicanalista francês Jacques Lacan associa-se ao tema das psicoses (associado popularmente à tradicional loucura) em função de sua ousadia em estender a prática clínica da psicanálise a essa estrutura clínica. Tradicionalmente S. Freud restringia essa prática às neuroses, alertando sobre dificuldades quanto ao estabelecimento e manejo da transferência na clínica com as psicoses, contra-indicando-a a esses casos. Lacan, psiquiatra de formação, teorizou sobre os tipos clínicos de psicoses, sobre a especificidade da transferência nesses casos e, finalmente, aplicou a psicanálise aos mesmos. Com isso, seu nome se tornou referência crucial para aqueles que se dedicam a escutar os psicóticos. Hoje, com a reforma psiquiátrica brasileira, essa abertura ganhou um notável valor político aliado ao avanço clínico já consolidado no setor, pois a psicanálise permite que se entenda a psicose, não como um déficit, mas antes como um estilo de resposta subjetiva.

O delírio, que muitos sempre acreditaram ser um sintoma, na verdade é uma tentativa de cura do paciente, não? Esta descoberta mudou os rumos dos estudos nessa área?
Sem dúvida, mudou sim. Nos estudos clássicos em psiquiatria, orientados, sobretudo, pela fenomenologia, os delírios figuram ao lado das alucinações enquanto sintomas das psicoses - respectivamente, transtornos da ordem do pensamento e da percepção. Entretanto, com o estudo de Freud sobre o livro de um "doente de nervos" - como se auto-intitulou o autor do mesmo -, o pai da psicanálise se deu conta de que, através do delírio, Schreber, o "doente", buscava reordenar o caos ao qual sua psicose o havia conduzido. Esse achado clínico reorientou a discussão teórica, pois o delírio na psicose passou a ser equivalente à fantasia na neurose, ambas as estratégias operando no sentido de reparar uma perda fundamental da realidade no ser falante. Além disso, o trabalho do psicanalista com os psicóticos ganhou nova direção, pois o delírio passou a ter um peso simbólico, podendo reestruturar uma lógica perdida que poderia, então, orientar o sujeito.

Hoje quais são os tratamentos mais utilizados? A arte se transformou na principal via na tentativa de cura?
Três elementos se transformaram com mais radicalidade ao longo dos últimos anos no tratamento das psicoses: o local do tratamento (verificou-se que o isolamento e a internação hospitalar raramente possuem valor terapêutico, sendo possível e desejável um acolhimento da crise e da doença com o psicótico em seu próprio meio); os medicamentos (hoje mais potentes e com menos efeitos colaterais) e a postura diante do psicótico. A psicanálise trouxe contribuições mais decisivas em relação a este último aspecto. Como vimos, a construção psicótica delirante pode ter um efeito reestruturante, a partir da lógica interna que a articula. Mesmo que quase nunca partilhado pela cultura e pela sociedade, o delírio possui uma função na direção do tratamento. Assim, a palavra do "louco" ganha um novo valor nesta clínica por conta da possível função estabilizadora que o delírio pode alcançar (o que nem sempre acontece entretanto). Além da oferta de escuta que um psicanalista pode oferecer, sabemos também que o próprio sujeito pode criar outras estratégias de "cura", como, por exemplo, a produção artística. Assim, ao atendermos um psicótico ficamos atentos a todas as suas produções subjetivas. Elas operam como guias, placas indicadoras, na direção do tratamento possível das psicoses.

Até hoje a psicose continua um mistério em relação à cura, não? Apesar disso, alguns pacientes conseguiram fazer o caminho de volta. O tratamento ainda depende muito mais do paciente que do médico?
Na verdade, pela psicanálise entendemos que cada sujeito encontra-se numa posição estrutural em relação à linguagem e ao gozo, à satisfação, seja ela uma posição neurótica, psicótica ou perversa. Quanto a isso, não há volta, não mudamos de estrutura, ninguém seria idealmente normal. O que se pode alcançar é uma posição mais confortável, menos sintomática e de menos sofrimento, em qualquer dessas três estruturas clínicas. O sujeito inventa suas soluções que podem ser afirmadas pelo analista ou desencorajadas – no caso das psicoses, conforme potencializem ou não a estabilização. Quando falamos em "cura" em psicanálise, estamos, assim, pensando antes na condução do tratamento que na correção ou extinção de um sintoma ou na recuperação de um estado de equilíbrio perdido. O importante é que o psicótico, desencadeada sua "loucura", possa encontrar um novo caminho, um novo estilo de vida com os recursos dos quais disporá a partir de então.
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