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Entrevista: Alberto Oliva

25 de Fevereiro de 2011
Acredita que esse é um livro essencial para quem está dando os primeiros passos na epistemologia e também para todos aqueles que querem se aprofundar na busca por conhecimento?
Em um mundo como o atual, em que proliferam as informações e as opiniões, é crucial poder distingui-las do genuíno conhecimento. Todo conhecimento é crença, mas nem toda crença pode aspirar a ser conhecimento. Daí ser fundamental contar com um critério que se mostre capaz de especificar as condições necessárias e suficientes para se caracterizar uma crença como conhecimento. O livro Teoria do Conhecimento almeja expor como tem sido o conhecimento tradicionalmente concebido e identificar as dificuldades para estabelecer a verdade de uma crença e para justificá-la. 

A busca da verdade é um dos temas do livro. Como continuar nessa busca numa época em que a verdade varia de acordo com o ponto de vista?
Não há conhecimento falso. Desse modo, a verdade precisa ser estabelecida para que se possa postular ter conhecimento sobre alguma coisa. Como se pode chegar a uma crença verdadeira por acaso, palpite, acidente etc, a verdade da crença é condição necessária, mas não suficiente, para se ter conhecimento. Daí a busca da justificação ser decisiva. Os debates entre os que acreditam ser a verdade alcançável, os céticos e os relativistas têm sido recorrentes desde a filosofia grega. Para muitas coisas se pode dizer que ‘assim é se assim lhe parece’. Mas decretar, já de saída, que as crenças variam de acordo com o ponto de vista e perspectiva de cada um significa renunciar a procurar uma compreensão objetiva capaz de levar ao conhecimento. A verdade última e a explicação definitiva podem não ser alcançáveis. Mas isso não significa que não se possa chegar a crenças fundamentadas, à luz da evidência até aqui disponível, porém passiveis de revisão. Mais importante que encontrar a verdade é buscá-la indefinidamente. O relativismo deixa a impressão de que desiste antes de esgotar as tentativas.

Acima de tudo, seu objetivo foi ensinar o leitor a ter um olhar crítico em relação ao conhecimento? 
Pode-se dizer que as questões filosóficas são de um tipo que constitui erro técnico alegar tê-las resolvido e ingenuidade conceitual deixar de formulá-las. Sem os óculos da filosofia tendemos a ver as coisas sem distanciamento crítico. A filosofia nos oferece, entre outras coisas, as diversas maneiras de encarar questões espinhosas como a da verdade. Pode não nos dizer o que é a verdade, mas mapeará as diversas formas de pensá-la apontando os argumentos favoráveis e contrários a cada uma. Foi esse tipo de exercício que procurei fazer no livro. Não me dediquei a veicular uma visão específica e sim apontar as questões que mais têm absorvido os grandes teóricos da epistemologia desde Platão. 

Diferenciar realidade de aparência é uma das tarefas de todo o pesquisador, seja de que área for, mas também de todo leitor crítico, independentemente do conteúdo que esteja lendo?
Como grande crítica do senso comum, a filosofia nasce com a vocação de questionar as visões e concepções endossadas de modo acrítico. Seus primeiros grandes criadores ressaltam a necessidade de se distinguir o que é a aparência de uma coisa de sua real natureza, uma argumento válido de um sofisma, um mero jogo de palavras de uma efetiva explicação e assim por diante. Na discussão do conhecimento não se pode deixar de sublinhar o quanto enganosamente endossamos como conhecimento determinados entendimentos das coisas que não passam de opiniões circunstanciais formadas sem submetê-las a qualquer crivo epistemológico.
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