Zahar

Blog da editora

Entrevista: Alan Beattie

19 de Março de 2010
Em Falsa economia, o senhor defende que os homens são responsáveis pelos destinos dos países. Não acredita que, apesar de todas as estratégias e decisões desenvolvidas pelos países, cidades e economias, há uma porção de sorte que influencia os acontecimentos? 
Claro que há um pouco de sorte, mas ao longo do tempo esta é ofuscada em importância pelas escolhas que cada país faz. Alguns países foram dotados de uma grande quantidade de recursos naturais (Argentina) e ainda assim conseguiram desperdiçar grande parte das oportunidades; outros países, como os Estados Unidos, fizeram muito melhor a partir de um ponto de partida semelhante. Um dos exemplos que eu olhei foi como os países com petróleo ou diamantes conseguiram administrá-los. Uma das poucas histórias de sucesso foi Botswana, que para além do diamante - que provou ser uma maldição para outros países como Angola e Serra Leona - tinha quase nada a seu favor. Conquistou a independência como uma nação do interior, bem ao lado da África do Sul do apartheid, com apenas 12 quilômetros de estrada asfaltada, 22 universitários graduados e cem pessoas que tinham concluído o ensino médio. E mesmo assim, por nada mais do que uma série de boas decisões de seu governo, conseguiu se tornar o mais rápido crescimento econômico na Terra durante trinta anos. Basta olhar o quão bem o Brasil foi ao longo da última década, tanto em comparação com o seu próprio passado e em comparação com países vizinhos como a Argentina. Não houve grande mistério ou grande golpe de sorte para explicar por que isso aconteceu ao Brasil: foram governos de diferentes partes obtendo o direito básico de funcionamento de uma sociedade estável, uma política macroeconômica responsável e, em seguida, uma tentativa de estender os benefícios através do Bolsa Família e outros programas. 

Como foi a recepção para a sua teoria? O senhor discutiu suas ideias com economistas? 
Pareceu-me uma reação bastante boa de uma forma geral. Ao longo da última década ou das duas últimas, tem havido uma aceitação muito maior da ideia de que ninguém tem todas as respostas em relação ao desenvolvimento da economia e que uma simples abordagem como "libere isso se isso se move" não funcionou realmente. Portanto, a abordagem bastante eclética que eu tive, estabelecendo poucos e amplos princípios, mas não com uma prescrição detalhada do que exatamente cada país deve fazer, se harmoniza com este novo sentimento. 

No Brasil há a crença de que a corrupção está entre os maiores entraves para o crescimento do país. Mas em seu livro há a evidência de que alguns países conseguiram superar essa situação. Em sua opinião, é possível se desenvolver e crescer, apesar de toda a corrupção? 
O efeito da corrupção depende de que tipo ela é. Se é uma forma estável e previsível de corrupção, que esfumaça relativamente uma quantidade razoável de dinheiro a partir do topo, isso se transforma quase como um imposto. Se é uma forma predatória e imprevisível de corrupção, que desce até empresas e indústrias e tenta saqueá-las, isso pode ser muito mais prejudicial. Historicamente, por exemplo, países do Leste Asiático, como Indonésia e Coréia do Sul tendem a ter o estável, uma forma menos prejudicial de corrupção, enquanto os países africanos muitas vezes têmcleptocratas em comando. A corrupção na América do Sul tem se posicionado, geralmente, em algum ponto entre os dois tipos - tem certamente agido como um entrave ao crescimento, mas não foi fatal para o crescimento da mesma forma que o saque aos cofres do Estado na África tem sido. Os países podem crescer apesar da corrupção: ela só torna mais difícil. 

De acordo com a reação de diferentes países para a crise que afetou a economia mundial em 2008, acredita que haverá alguma mudança drástica na forma como a economia mundial hoje está estabelecida?
Acho que a coisa mais clara que podemos dizer é que qualquer proposta de liberalização dos mercados, e particularmente mercados financeiros, deve obter um controle muito maior e encontrar muito mais ceticismo a partir de agora do que teria há três anos atrás. 
Categorias: Entrevistas