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Affonso Romano de Sant'Anna sobre "Zelota"

08 de Janeiro de 2014

Leia artigo do escritor Affonso Romano de Sant'Anna sobre Zelota, de Reza Aslan:

"Não é de hoje que se tenta contar a vida de Jesus diferentemente do que narram os Evangelhos. Nestes dias, está causando furor o livro Zelota, do historiador Reza Aslan. O interesse começa pelo fato de ele ser iraniano-americano. A família dele emigrou para os EUA em 1979, fugindo da revolução dos aiatolás.

Como vários amigos judeus se referiram ao livro, tratei de lê-lo. Os judeus têm mais razão de gostar do livro que os cristãos. Estes se sentem desconfortáveis (e incrédulos) quando leem coisas que abalam a noção da divindade de Cristo. Para muitos, a Bíblia seria um livro infalível, a própria palavra de Deus. Os ortodoxos judeus também creem que a Torá é inatacável.

É meio desconcertante ler que alguns evangelhos foram escritos cerca de 50 ou 100 anos depois da passagem de Cristo por aqui. Alguns foram retocados pela Igreja, codificados e uniformizados. E há os evangelhos apócrifos com informacões que a Igreja não valida. Aliás, a Bíblia protestante é diferente da católica. Esta tem 73 livros. Lutero rechaçou sete livros, criou uma Bíblia mais depurada.

A primeira vez que li isso foi na adolescência, no impactante romance O drama de Jean Barois, de Roger Martin du Gard (1881-1958), que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1937. Ali está a vida de alguém criado na religião que virou ateu e escreveu dois testamentos contraditórios: um no meio da vida, outro no fim. Cabe ao leitor decidir (ou não) qual é o mais verdadeiro.

O livro vinha no rastro de Vida de Jesus (1863), de Ernest Renan. Este teve uma crise de fé aos 22 anos. Seu livro teve um êxito incrível, oito edições em três meses. E está de graça na internet. Quando tentava me informar sobre esse assunto, li também Por que não sou cristão, de Bertrand Russell.

Recentemente, surgiu um interesse pelas biografias. Daí essa discussão no Brasil sobre biografias autorizadas e não autorizadas. Vocês se lembram de que José Saramago teve êxito com O Evangelho segundo Jesus Cristo. Era uma coisa que faltava, pois havia textos dados como sendo de seus discípulos, mas não do próprio Cristo. Saramago correu muitos riscos com sua obra. Recentemente, surgiu algo mais estranho: O Evangelho segundo Judas, publicado em 2006, atribuído a gnósticos do século 2, redigido em copta dialetal. Nessa sequência há também o Evangelho de Maria.

Enfim, versões é que não faltam da vida de Cristo.

O iraniano-americano Reza Aslan começa por indagar se Cristo era de Nazaré ou de Belém. Conhecedor do assunto e de várias línguas, segue com muitos dados históricos, botando em dúvida, por exemplo, a matança das crianças por Herodes. Se isso for verdade, olharemos os belos quadros pintados sobre esse fato como patética ficção e Herodes não será o guru dos que detestam crianças. Igualmente, toda aquela história de sedução de Salomé, que pediu a cabeça de João Batista, seria outra invenção, sem qualquer comprovação histórica.

E vai por aí afora.

Crentes, protestantes e católicos pensam que isso em nada abala sua fé. Para quem gosta de história, o livro de Aslan é estimulante. O rapaz é especialista também em islã, estudou a evolução e o futuro dessa religião, ampliou suas pesquisas reconstruindo o tempo em que Jesus andou entre nós.

Não é nada, não é nada… é uma leitura instigante nestas férias."

(Originalmente publicado no jornal Correio Braziliense em 5/1/2014)

Categorias: Notícias

Comentários

Vera Londres

A melhor coisa q os livros Evangelho segundo Jesus Cristo e Zelota fizeram foi pintar a figura de Cristo com as tintas do humanismo mostrando um caminho árduo de esforço e superação, afastando e discutindo os aspectos divinos de um Cristo vendido pela Igreja para angariar e vender a salvação.

01 de Julho de 2014

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