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Leia o prefácio de “Garotas & sexo”, escrito por Regina Navarro Lins

04 de Outubro de 2017

Referência quando se fala em juventude e sexualidade nos Estados Unidos, em Garotas & sexo a jornalista Peggy Orenstein desfaz mitos e preconceitos ao abordar temas difíceis e muitas vezes silenciados como cultura do estupro, machismo, virgindade, pornografia e falta de informação sobre o prazer feminino. E faz um chamado urgente para a necessidade de dialogarmos, esquecermos preconceitos e nos educarmos – tanto adultos quanto jovens.

A edição brasileira chega às livrarias a partir de quinta, 5/10, e está em pré-venda em nosso site.

Leia o prefácio escrito pela psicanalista e escritora Regina Navarro Lins*:

       

 

Garotas & sexo trata da descoberta do amor, do que é e do que pode ser. Trata de como lidar com a sexualidade quando se é uma garota e os perigos e prazeres em torno desse momento especial. Esses são os pontos de partida do livro de Peggy Orenstein.

A autora entrevistou mais de setenta jovens americanas, de vários segmentos culturais e sociais dos Estados Unidos, e comenta o que ouviu utilizando pesquisas realizadas nos últimos anos. O resultado é um quadro detalhado e apaixonante de como as adolescentes e jovens daquele país vivem as primeiras experiências com rapazes, consigo mesmas e com outras meninas. O que elas ouviram de seus pais sobre a iniciação sexual? E dos rapazes que as desejavam nuas em seus braços? Dos educadores nas aulas de saúde sexual? Todo esse material forma um forte retrato da realidade dos jovens americanos. Não é surpresa que muitos dos perfis narrados pela autora se assemelhem aos de brasileiras. Se no Brasil a coisa não é exatamente igual, há muitos pontos em comum, e o leitor poderá fazer comparações. Vamos falar sobre isso, mas antes é interessante pensar um pouco sobre como evoluíram as mentalidades nessa questão específica.

Até o início do século XX, as moças iniciavam a vida sexual por volta dos 13, 14 anos ou até antes. Geralmente por imposição da família, se casavam cedo e o objetivo do sexo era apenas gerar filhos. O prazer praticamente só existia para o homem. Por ser desnecessário à procriação, para a mulher não era nem cogitado. Ao contrário, a dor e o sofrimento faziam parte do sexo. Mas surgiu uma grande novidade em meados do século XX: o encontro marcado. Telefone e automóvel transformaram as relações amorosas. Os conservadores alertaram para a indecência e o perigo do telefone. Diziam que a moça poderia estar recostada e a voz do homem entrar pelo seu ouvido e despertar o desejo sexual. Em lugar do encontro na igreja, da conversa preliminar com o pai e das tardes muito bem vigiadas na sala de visitas da família, os jovens passaram a marcar encontros por telefone e sair a passeio a sós, de carro. Nos anos 1950 e 1960 a virgindade ainda era um valor; uma moça que não a preservasse teria dificuldade em se casar.

A pílula anticoncepcional foi a grande responsável pela radical mudança de comportamento amoroso e sexual observado a partir dos anos 1960. O sexo foi definitivamente dissociado da procriação e aliado ao prazer. A mulher se liberta da angústia da maternidade indesejada e passa a reivindicar o direito de fazer do seu corpo o que bem quiser.

A chamada Revolução Sexual começou no plano teórico com as ideias de pensadores como Freud e Reich, continuando com Herbert Marcuse e Norman O. Brown. Mas ela só ganhou verdadeiro significado para a civilização ocidental quando atingiu grandes segmentos da população, modificando as mentalidades e, principalmente, o comportamento das pessoas.

Os movimentos de contracultura – movimento hippie, movimento feminista, movimento gay – constituem o início de um modelo ocidental radicalmente diferente do passado. Eles alteraram as correlações de força na sociedade, desfizeram preconceitos, ridicularizaram falsos poderes e criaram novos paradigmas culturais que vieram para ficar, como o modo de vestir, de fazer arte e de se relacionar.

Contudo, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, e em todo o mundo, com diferenças sutis ou não, a sexualidade continuou a ser mal compreendida. Lembro-me da frase que ouvi do psicoterapeuta e escritor José Ângelo Gaiarsa: “A maioria dos adolescentes se inicia no sexo meio na esquina, meio escondidinho, meio apertadinho, e nunca mais sai desse apertadinho até o fim da vida.” Peggy Orenstein trata disso em seu livro: muitas das entrevistadas relatam as pressões que sofreram não só dos pais, como das amigas e colegas, mulheres e homens.

Nos Estados Unidos, a questão da iniciação sexual atinge grande número de jovens por via da religião, especialmente evangélica. A autora dedica um capítulo à análise de organizações que trabalham para convencer as meninas a se casarem virgens. O Brasil também possui segmentos religiosos que procuram influenciar a educação sexual das meninas.

Como disse no início, uma boa parte dos perfis narrados pelas entrevistadas de Peggy Orenstein se assemelha aos perfis de brasileiras, e as comparações podem ser muito proveitosas. A exibição do corpo em um país tropical como o nosso interfere na cultura amorosa. A exposição reduz a timidez e traça uma linha em comum entre os sexos. De qualquer forma, os controles políticos, sociais e religiosos sobre o prazer continuam existindo em todas as partes do mundo. Certos prazeres são aceitos, alguns condenados e outros proibidos mesmo. Não é sem motivo. Controlar os prazeres das pessoas é controlar as pessoas.

A busca por traçar um paralelo entre a realidade exposta por Peggy Orenstein e a forma como nossas garotas tratam a sexualidade transita por esse fio de navalha: lá, houve e há mais repressão familiar e social; no Brasil há menos estrutura social e padrão cultural. A violência aqui muitas vezes nem sequer é registrada.

Peggy Orenstein dedica um capítulo ao estupro de meninas. Para falar desse assunto em comparação com nosso país precisamos ser ingênuos ou hipócritas. A Anistia Internacional afirma, em seu relatório intitulado O estado dos direitos humanos no mundo em 2016-2017, que o governo brasileiro é incapaz de “respeitar, proteger e cumprir os direitos humanos de mulheres e crianças”. E, se Orenstein trata de assédio e estupro nas escolas e universidades americanas, essa é também uma questão que se impõe no Brasil, vide os casos de estupro na USP, a mais conceituada universidade brasileira.

A autora expõe, pelas entrevistas, a questão do uso de álcool nas festas, que muitas vezes têm como desfecho o assédio e o estupro. Houve uma redução da tolerância para a aceitação tácita do assédio e da agressão. A Anheuser-Busch, fabricante de cervejas, descobriu isso em 2015, quando a empresa revelou o novo slogan para a Bud Light: “A cerveja perfeita para retirar o ‘não’ do seu vocabulário para a noite”. Ela foi forçada a divulgar um pedido público de desculpas depois que notícias sobre o slogan se disseminaram pelo Twitter.

Mas os conservadores americanos, machistas e antifeministas, argumentam que as meninas embriagadas e de saias curtas estão incentivando o estupro. O pior é que, muitas vezes, a justiça americana lhes tem dado ganho de causa. O dilema da exposição das garotas passa pela conquista, a disputa pelo interesse dos parceiros, o “ser desejada” torna-se fundamental. Nesse sentido, a obra aborda também a força dos padrões de beleza e as formas de atração.

No encerramento do livro é enfocado o trabalho de Charis Denison, uma pedagoga da Califórnia que faz orientação sexual com meninas do ensino médio. Ela vai direto ao ponto, como diz o título do capítulo: E se nós lhes contássemos a verdade? Charis incentiva as garotas a conhecerem o próprio corpo, o clitóris, as vias para o seu prazer. O caminho é a compreensão do real, sempre.

É difícil quando você busca ter uma experiência sexual com alguém e não sabe o que é bom para você”, diz Denison para os adolescentes espalhados pelo chão. “É difícil permitir que outra pessoa tenha esse poder de decisão. Por isso, se alguém decide se tornar sexualmente ativo com outra pessoa, é muito bom ser sexual consigo mesmo antes. É bom para descobrir do que você gosta.

A profunda modificação fisiológica que ocorre na puberdade, com o aumento da produção de androgênios e estrogênios, prepara o corpo para a reprodução, ao intensificar o desejo sexual no homem e na mulher. A busca da satisfação é o caminho natural. Entretanto, o controle sobre o prazer continua a ser exercido. Os rapazes são incentivados a ter logo a primeira experiência sexual, não importando com quem. A sociedade patriarcal exige deles essa prova de virilidade. Devem estar sempre dispostos, não recusar nenhuma oferta, e o mais importante, nunca falhar. A moça, ao contrário, dever reprimir seus impulsos sexuais, ocultar seus desejos, fingir que não se interessa muito pelo assunto.

Num discurso pseudoliberal, muitos pais, devido a seus preconceitos, passam às filhas uma mensagem contraditória. São tantos conselhos e advertências, tantas proibições e alertas em relação aos perigos envolvidos, que em raros casos o sexo é vivido com tranquilidade e prazer. “Não tenho nada contra você ter relações sexuais com seu namorado, desde que esteja certa de poder assumir as responsabilidades, de que é um namoro sério, de que tem certeza de que o ama, de que ele não a esteja usando, e de que se o namoro terminar você não vai ficar mal, não vai se arrepender…”

Alguém, mesmo aos oitenta anos, pode ter tantas certezas? E aos quinze, dezessete, ou aos dezoito? As mães de cinquenta anos atrás não tinham um discurso dúbio. Tudo era proibido mesmo. Facilitavam, assim, a opção das jovens quanto à própria vida sexual. Seus valores eram passados com clareza, o que tornava mais fácil percebê-los como ultrapassados.

Acredito que o jovem deve iniciar sua vida sexual quando desejar. Os pais e a sociedade devem cuidar para que isso ocorra da forma mais natural e prazerosa possível. A saúde mental e social das pessoas depende disso. Certamente muitos casos de disfunção erétil, ejaculação precoce e ausência de orgasmo feminino seriam evitados, assim como diversos tipos de agressão sexual. Um estudo publicado em 1975 nos Estados Unidos, feito em quatrocentas sociedades pré-industriais, concluiu que, nas culturas não repressoras da atividade sexual de seus  adolescentes, o índice de violência é mínimo.

Só mais um detalhe: o uso da pílula e da camisinha deveria fazer parte da educação, como o ato de tomar banho e o de escovar os dentes.

 

 * Regina Navarro Lins é psicanalista e escritora, autora de onze livros sobre relacionamento amoroso e sexual. Atende em consultório particular há 42 anos e realiza palestras por todo o Brasil. É consultora e participante do programa “Amor & Sexo”, da TV Globo, e apresenta o quadro semanal Sexo em Pauta, no programa Em Pauta, da Globonews.

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