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Blog da editora

A frustração como caminho para certa liberdade

07 de Junho de 2017

* Por Lulli e Julia Milman, autoras de A vida com crianças

 

Pode parecer extremamente frustrante o que vamos dizer, principalmente porque falamos para pessoas que cuidam e educam crianças, mas aqui vai: preparem-se, pois alguma coisa sempre vai dar errado! Acreditamos que esse aviso, que vai muito além de uma profecia pessimista, seja o caminho da liberdade – dos pais e dos filhos.

Sempre que entramos em uma empreitada fazemos planos, seja na simples organização de um dia qualquer de nossa vida, em um longo projeto de carreira, ou em uma festa de aniversário. São expectativas que construímos no papel, no lápis, no orçamento, mas principalmente dentro de nós, na nossa fantasia. Com filhos, claro, não é diferente. Fazemos os planos, mas o resultado nunca é exatamente como planejamos. E, nesse caso, tanto a expectativa quanto a frustração vêm de dois polos –  de nossa atuação como pais  e do conjunto de ações, afetos, pensamentos que constitui nosso filho.

Impossível, sem estarmos naufragados em uma grande ilusão, acharmos que todas as nossas atitudes, os nossos pensamentos e sentimentos correspondam aos pais que sonhávamos ser. Impossível, sem atingir um grau de desonestidade acachapante,  achar que “tudo que vem de” e “tudo que é” seu pimpolho sejam apenas sinais de que ele é a mais perfeita das criaturas. Não dá, não é? Então, todos os que não estão naufragados na grande ilusão e são minimamente honestos terão a difícil e desconcertante tarefa de lidar com a frustração na relação com seus filhos.

Mas o que é esse “caminho da liberdade”? É que essa frustração vem do simples fato intransponível, maravilhoso, de que o filho é único, particular, diferente de todos, até do papai e da mamãe. OK, os olhos são iguais aos do pai, o sorriso igual ao da mãe, mas o conjunto da obra é uma criação original. Sempre! E que delícia pode ser nos depararmos com aquilo que não imaginávamos!

Como parte da construção dessa singularidade, por volta dos dois anos a criança começa a dizer não e a se ver como um eu. Diz não à fusão com o outro e diz sim ao seu desejo. Perfeito, temos agora um serzinho único já aprendendo a utilizar a fala como meio de expressão de seu ser. E aí lidamos com outro tipo de questão relacionada à frustração, pois nós também vamos ter que dizer nosso não. Se pensarmos bem, não é aí que começamos a dizer não, ele vem desde sempre: o bebê quer mamar, a mamãe não está ali na hora ou não entende o pedido, ele acorda, o seio dói, ela está dormindo, ele sente cólicas, ela não lhe deu uma vida isenta de dor... Mas é nesse momento da vida, dois anos, quando entra a fala, o controle dos esfíncteres, o eu, a vida social, que a questão do não se recoloca.

Muita gente diz que, por a vida já ser tão dura, não seremos nós que frustraremos nossos filhos. E aí deixa rolar: pode bater na vovó, na mãe, na babá; tem que ganhar ipad aos dois anos. Mas a frustração maior vem daí: ter pais que não encaram a vida; que não aguentam os filhos em suas fraquezas, em suas chatices; que acham que um telefone vale mais que um adulto, que um tênis vale mais que uma vida.

Não dá para escapar da frustração e, mais do que tudo, não faz bem tentar escapar. A frustração, o limite, o ponto do basta existem. São os marcos de nosso lugar no mundo, do que podemos buscar fora, do que nos serve dentro. Sem ceder à satisfação imediata, conferimos a todos nós o acesso às trocas, à busca, à criatividade. Esses marcos são intrínsecos à vida, as crianças lidarão com eles inevitavelmente. Os adultos que as criam têm como tarefa fazer essa mediação, acompanhar os efeitos das limitações. Ainda que muitas vezes, em princípio, as crianças esperneiem, lidar com esses marcos é um sinal de que adultos cuidam delas. Sem esse cuidado, elas terão que buscar dentro de si, sozinhas, formas internas de controle, de organização – o que, com frequência, é a base de núcleos de sofrimento e empobrecimento psíquico.

 

    A vida com crianças, das psicólogas Julia e Lulli Milman, toma como base todos os aspectos que norteiam as relações familiares para refletir, levantar questões e, sobretudo, orientar nos diversos assuntos que acompanham os pais nesse grande desafio que é criar filhos.


 

 Especializadas em crianças, as psicólogas Lulli Milman - que por 30 anos foi supervisora do curso de graduação em Psicologia da UERJ - e Julia Milman - mestre em Políticas Públicas e Formação Humana, e diretora-executiva da ONG Casa da Árvore - são mãe e filha, e escreveram juntas o livro A vida com crianças. Na coluna que leva o mesmo nome, as autoras buscam discutir temas recorrentes no cotidiano daqueles que cuidam e convivem com crianças.