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Entrevista: André Telles e Rodrigo Lacerda, tradutores de "Os três mosqueteiros"

19 de Novembro de 2010
O Conde de Monte Cristo ganhou o Prêmio Jabuti 2009 de melhor tradução de obra literária francês-português. Como foi traduzir agora Os três mosqueteiros, a obra mais famosa de Alexandre Dumas?

- A tradução foi feita com o entusiasmo de dois admiradores de clássicos de aventuras. Somos duas pessoas marcadas pelas leituras de Dumas, desde a nossa adolescência. O fato de, ao contrário do Conde, os Mosqueteiros abundarem em cenas de comédia, exigiu uma tradução mais livre, eventualmente mais fiel ao espírito do que à letra do texto. Também o ritmo acelerado da ação exigiu bom senso, para avaliar quando, em relação ao original, pequenas variações na pontuação das frases contribuía para a manutenção desse ritmo, privilegiando-o em detrimento a uma obediência cega (e burocrática) a uma pontuação mais comum na língua francesa do período.
Uma diferença - a princípio banal mas que costuma afugentar o jovem leitor - em relação às traduções até hoje publicadas foi a adoção da forma de tratamento você entre os mosqueteiros, em lugar do tu ou do vós. Isso torna o texto muito mais leve de se ler, e muito mais plausível ao leitor de hoje, para quem é difícil imaginar, por exemplo, dois grandes amigos, como d'Artagnan e Athos, tratando-se por vós. Claro que, sempre que os personagens dos reis e ministros estavam na cena, o protocolo de tratamento a chefes de Estado é mantido, novamente para dar verossimilhança à cena, pois não se imagina um camareiro chamando Luís XIII de você. Tentamos cumpádimanovéio, mas por algum motivo também não ficou legal...
Vale mencionar também que nossas edições de Dumas tomam cuidados que nem mesmo as francesas tomam. Por exemplo: se no capítulo 1 o personagem é louro, e a partir do capítulo 2 ele sempre aparece com vastas cabeleiras morenas, evidenciando uma contradição obviamente decorrente do fato de o livro ter originalmente sido publicado como folhetim, isto é em partes, e considerando o fato comprovado de que Dumas nunca reviu seus livros depois de publicados integralmente, nós protegemos o leitor de eventuais confusões eliminando a contradição, mas de forma absolutamente cirúrgica, sem mudar absolutamente nada mais da frase em que a contradição aparece. Nos casos em que mexidas maiores do que a simples troca de uma palavra se fariam necessárias, puxamos uma nota e explicamos a contradição, citando as páginas em que as informações contraditórias aparecem, de modo, novamente, a que o leitor não se confunda e que possa se certificar de que não estava com uma falsa impressão sobre algum ponto do texto, mas sim que fora levado a erro pelo próprio modo de produção do autor. É uma maneira de fazer uma edição minimamente crítica sem entediar o leitor.
Do ponto de vista mais prático, no entanto, a dinâmica de trabalho foi a mesma que utilizamos no Conde: o André faz o texto-base integral; eu, Rodrigo, faço um novo tratamento pesado, cotejando linha por linha, e depois fazemos um segundo tratamento já na primeira prova. Enquanto isso, o André faz a busca das imagens e de bibliografia, enquanto eu faço as notas, pedindo socorro a ele quando é absolutamente necessário.
Do ponto de vista da padronização do texto, usamos basicamente os mesmo critério que no Conde. Todos visando a compreensão mais fácil e imediata ao leitor.

A tradução foi feita a partir de qual versão?

- Creio que essa pergunta não se aplica muito bem aos romances do Dumas, cujos textos não receberam até hoje, na França, um tratamento crítico digno desse nome, com edições que registrem variantes, contradições internas etc. A tradução tomou com base a edição da Pléiade, que difere das outras apenas pelo aparato crítico que a acompanha.

Como foi a confecção de notas para esta edição? Que tipo de características foram enfatizadas?

- A principal orientação da nota é atender às lacunas de informação do próprio texto. Isso acontece quando um personagem histórico é referido e, no resto todo do romance, não se tem mais nenhuma informação ou referência sobre ele, ou, em outro caso, quando o original usa uma expressão típica da época sem maiores explicações, como it de justice, por exemplo. Não há tradução para isso, é um jargão da monarquia francesa, mas o leitor brasileiro não é obrigado a saber do que se trata.
A segunda função das notas é apontar as contradições do próprio texto, de modo a que o leitor não fique confuso e sua leitura continue fluente.
A terceira função das notas é, quando o enredo do romance assim o exige, dar ao leitor brasileiro informações básicas sobre o pano de fundo histórico do período, que para o leitor francês talvez esteja claro, pois ele pode ter estudado aquele assunto no colégio, mas que não necessariamente foi o caso do leitor brasileiro. Um exemplo disso, nos Mosqueteiros, é o cerco de La Rochelle, episódio importante no ocaso das Guerras de Religião na França, entre católicos e protestantes. A emoção da história só aumenta se você entende a dimensão histórica dos acontecimentos, pois d'Artagnan e cia. estão intimamente ligados a eles. Em compensação, fugimos das notas que explicam minúcias absolutamente decorativas da história da França, ou a genalogia das ruas de Paris e coisas assim, exclusivamente de interesse do leitor francês (se tanto), que enchem páginas e páginas de notas nas edições francesas.
Categorias: Entrevista

Comentários

NAT

Muito embora terem recebido o Prêmio já fale por si mesmo, na qualidade de leitora, posso dar feedback aos tradutores, parabenizando-os mais uma vez e frisando que ficou magistral.Suas notas ficaram excelentes e o texto divino de se ler. De uma leveza e poética, que certamente, fizeram jus à Obra magnífica de Dumas. Embora eu tenha cursado História na Universidade,não sou especialista em Sec. XVII na França, mas posso dizer que, daquilo que estudei a tradução na contextualização histórica, a descrição e as observações de pés de página ficaram irretocáveis - ótimas!!! Gostaria que os senhores traduzissem também "Vinte anos depois". Seria um presente aos leitores!!!!

18 de Dezembro de 2015

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