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Entrevista: André Logaldi, diretor de degustação da ABS-SP

30 de Novembro de 2008
Qual a sua opinião sobre um guia como o de vinhos franceses? 
Creio que exista, relacionado ao vinho, uma grande multiplicidade de pontos de vista: culturais, históricos, físico-químicos, sensoriais e sociais. Um verdadeiro caleidoscópio de impressões que não só atraem, mas seduzem os interessados. A França é uma absoluta referência em vinicultura e todo verdadeiro amante do vinho irá buscar informações sobre este país em algum ponto de seu aprendizado.

Acha que é um item indispensável para todo apreciador de vinhos que quer entender sobre o assunto, seja ele iniciante ou não?
Tenho plena convicção. No meu caso, esse livro, em sua versão em francês, foi o segundo livro sobre vinhos que li e me atraiu porque justamente versava sobre a França, onde o vinho é uma paixão de raiz sócio-cultural, pela riqueza em detalhes das fartas ilustrações e, claro, dos mapas que são próprios aos guias e que se tornam companheiros atemporais, sempre prontos a nos orientar no planejamento de uma viagem sensorial.

Por que é necessário um guia só sobre vinhos franceses? Eles são realmente mais difíceis de entender do que os outros?
Em vários casos sim. Regiões vinícolas consagradas, não só da França como de toda a Europa, se baseiam em modelos de rótulos que partem da pressuposição de que o apreciador já conhece vários aspectos culturais por trás de cada garrafa. Assim como os europeus tratam com mais simpatia aqueles que se esforçam minimamente em falar o idioma local (sobretudo franceses e italianos), eles igualmente apreciam que saibam que quase todos os vinhos tintos da Borgonha sejam feitos com a uva Pinot Noir. Então, não é exatamente uma questão de dificuldade em ler o rótulo, mas, antes, de mostrar que você é um simpatizante da cultura local. Talvez demonstrem com isso que, se você não tem a humildade de se interessar pelo conteúdo da garrafa, então não merece bebê-la.

Dá para escolher um vinho pelo preço? Quer dizer: um vinho caro é sempre bom?
Nem todo vinho caro é universalmente aceito no que diz respeito ao paladar. A França vinícola traz um conceito de originalidade relacionado às suas paisagens agrícolas. Há por trás disso uma mostra de personalidade construída sobre fundamentos geográficos e culturais únicos: solos, climas, modos de condução das videiras, entre outros. Dessa forma, determinar se um vinho é bom significa definir o quanto o paladar de uma pessoa se adapta ao vinho que é elaborado dentro daquelas condições singulares. Sobre o preço, muitas vezes um vinho é caro por ser reconhecido como bom e ter uma produção minúscula. Então o preço final é determinado por uma especulação de mercado. Enfim, o preço não é um grande determinante de qualidade e nem um bom parâmetro de comparação. O verdadeiro êxtase do vinho se dá quando você, conhecendo a si mesmo, consegue identificar um estilo de vinho que lhe complete. E para isso é preciso estudar: conhecer muitos vinhos e conseguir compreender qual se adapta ao seu estado de espírito num dado momento, comparável a experiência de ouvir música, por exemplo: se você está triste tende a ouvir músicas melancólicas ou por oposição, algo que levante o humor.

Aprender a ler o rótulo de uma garrafa exige uma certa bagagem de conhecimento? Que tipo de informações você não deve ignorar?

Sim, certamente exige. Daí a importância de se ler ou consultar livros sobre o assunto. E quanto mais se aprofunda mais se compreende, quanto mais se compreende maior o interesse em aprender e suprir sua autoconfiança.
Creio que devemos focar alguns poucos pontos, no mínimo: em vinhos do Velho Mundo, se o rótulo informa se o vinho possui uma indicação de procedência, as “denominações de origem” que garantem uma qualidade mínima. Idem para os vinhos do Novo Mundo e também se esses trazem informações sobre as uvas utilizadas, fator importante para a escolha da garrafa. 

Já fez algum dos roteiros indicados no guia? Acredita que esse é um dos pontos altos da publicação?
Curiosamente, não, ao menos na França. Já fiz turnês na Itália e no Chile, além do nosso país, é claro. Todavia, esse é um ponto muito importante da publicação e um convite à complementação dos conhecimentos. Quando for visitar a França vinícola (só estive em Paris), esse guia será sem dúvida um ótimo companheiro.
 
Um vinho francês é mais difícil de harmonizar com a comida? Há paladares que neutralizam o sabor da bebida? 
Pelo contrário, o vinho francês é gastronômico e universal. Por exemplo, um filé de atum mal passado ou mesmo um sashimi desse peixe é um maravilhoso companheiro de um tinto da Borgonha. Os grandes países vinícolas europeus produzem vinhos de grande apelo gastronômico, sobretudo em suas harmonizações regionais, tais como um bom branco do Vale do Loire com um queijo de cabra de Chavignol. Os “inimigos do vinho”, os alimentos cuja harmonização é difícil, são também universais, ou seja, dificultam o casamento com qualquer vinho, não só franceses. Poucas vezes existem más harmonizações e sim, más escolhas. Sempre devemos ter a consciência de saber que mesmo um prato ou alimento que não gostamos, pode se tornar muito saboroso com o vinho correto (exatamente a minha relação com o queijo de cabra).
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