Zahar

Blog da editora

A agressividade e as discordâncias entre pais e filhos

12 de Julho de 2017

* Por Lulli e Julia Milman, autoras de A vida com crianças

 

Eu quero isso, ele quer aquilo, que chateação, que estresse! Lá vem bate boca, lá vem confusão! E você fica só sonhando - seria tão bom se só houvesse os momentos de perfeita sintonia entre nós... Pois é, talvez fosse bom mesmo mas o problema é que muita coisa boa se perderia nesse paraíso de harmonia.

O caminho da independência dos filhos, sua criatividade, autoestima, e movimento produtivo em direção ao mundo são as principais delas. E tudo isso porque a agressividade é vizinha da ação, indispensável para a construção de um caminho próprio e produtivo nesse nosso mundo. Não existe criar sem o questionar o conhecido. Em cada cansativa recusa de ir tomar banho, escovar os dentes, não querer ir almoçar na casa da avó, tem sempre uma ponta de construção de identidade. E se, desde sempre, entendermos que divergência e construção de independência caminham juntas, vai ficar mais fácil se posicionar (e suportar).

O problema é que a agressividade tem outra vizinha, a violência. E essa não pode ser tolerada. Se agressividade tem seu lado ação, violência é só destruição. Não se pode criar um ambiente em casa que permita - seja por apatia, culpa, ou pelo que for – que a violência ganhe espaço. Não podem ser tolerados a falta de respeito crônica e os embates físicos. Os grandes afastamentos, geralmente resultado de grandes mal entendidos, também são só prejuízo.

Tão bom afinal, encontrar o pessoal, ouvir histórias, rir junto com a turma, reconhecer nossos traços em nossos filhos! Nesse processo é importante termos consciência de que a construção da relação entre pais e filhos é um processo reconfortantemente continuo que começa muito antes do bebê nascer. Quando brigamos há uma quebra, uma descontinuidade nesse processo, e com isso vem o medo – muitas vezes imperceptível, no meio da batalha – de que algo ali possa se romper e tomar um destino inesperado.

Desde muito cedo  o fantasma da ruptura e da falta de amor pode estar presente. Por isso vale ficar atento. Um bebê que puxa  ou morde o seio da mãe não quer partir para a briga! Está só ensaiando seus domínios, medindo seus espaços, brincando de ser o dono. Uma criança de um ano e pouco/dois anos que dá um tapa nos seus cuidadores, também não está desafiando para um duelo. Quer medir a reação, quer aprender a se posicionar, a cuidar de si, a expressar sua aflição. No bebê, é só aceitar e retirar, apenas naquele instante, o seio. No maiorzinho, é segurar a mão, não se sentir rejeitado, e um simples “ai, ai, ai”, “nananinanão”, podem resolver a situação. Começar o aprendizado dos encontros humanos, ensinar ao pequeno que no outro dói, e que não dá para se expressar a custa do sofrimento físico do outro. Caminho muitas vezes árduo e imensamente amoroso, que a gente escolhe com tanto prazer quando temos nossos filhos.

 

   A vida com crianças, das psicólogas Julia e Lulli Milman, toma como base todos os aspectos que norteiam as relações familiares para refletir, levantar questões e, sobretudo, orientar nos diversos assuntos que acompanham os pais nesse grande desafio que é criar filhos.

 As psicólogas Lulli Milman - que por 30 anos foi supervisora do curso de graduação em Psicologia da UERJ - e Julia Milman - mestre em Políticas Públicas e Formação Humana, e diretora-executiva da ONG Casa da Árvore - são mãe e filha, e escreveram juntas o livro A vida com crianças. Na coluna que leva o mesmo nome, as autoras buscam discutir temas recorrentes no cotidiano daqueles que cuidam e convivem com crianças.